quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O mau (com u) amante

Hoje acordei como sempre
meio desgostoso da vida
com passarinhos cantando na janela
uma melodia encardida

E me lembrei que eu não gosto de música,
nem de poesia, nem de rima...
que se danem!

Mas pra você, e só pra você,
eu já fiz uma serenata
Tão desafinada, engasgada, sem graça

E no caminho pra sua casa
apressado pela vontade de te ver
passei por um mendigo,
tinha um rosto tão cansado
uma aparência tão suja
e veio logo me pedindo :
Ei, me dá um trocado? é pra comer...
Tenho e não dou, vai caçar o que fazer!

E no ônibus aconteceu de novo,
eu já estava sentado naquelas cadeiras azuis
com a cabeça encostada no vidro
lembrando do seu sorriso
e entrou uma velha,
arrastando aquelas suas pernas preguiçosas
já doida pra sentar
me virei e ronquei, até babei

Pouco antes de chegar à sua casa
e te perguntar "Tá tudo bem?"
e te ver respondendo, movendo seu lábios
bem devagarinho, concluí...

Que eu sou tão mau, indigno e 
inescrupuloso quanto um sapato velho
daqueles jogados no fundo da sapateira,
ou pior ainda, daqueles pendurados nos fios
que já valiam menos do que uma pipa
velha e rasgada

Mas também, que eu te amo indiscutivelmente
e que, no fim das contas, isso acaba sendo
a minha única qualidade

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Suicídio

Eu não sei exatamente o quanto de mim
têm no meu caminhar, 
no modo como balanço as mãos enquanto falo 
ou no jeito como me espreguiço.

Também não sei se aquela sua mania besta
de estalar os dedos, ou de morder os lábios
quando está impaciente, ou até mesmo
de olhar pro céu quando não sabe o que dizer,
foram roubadas inconscientemente de mim
ou se é algo proposital.

O fato é que, enquanto mergulhávamos
em um suor que jamais saberemos dizer
se era meu ou seu,
você me arranhava as costas e nem notava
que um pouco de mim se escondia
embaixo da suas unhas

E em cada beijo apaixonado,
em que eu sugava o ar dos seus pulmões,
acabava por trazer um pouco de você
também pra dentro de mim.

Me matar seria ao mesmo tempo
cometer um suicídio.
Porque um pouco de mim é você,
e um pouco de você sou eu.




"Toda mulher precisa de um homem que, de vez em quando, a conduza com firmeza a lugar nenhum."

domingo, 22 de setembro de 2013

Um abismo chamado "pra sempre"

     À beira de um abismo chamado "Pra sempre", nos encaravamos. A tensão fazia os cantos dos lábios tremerem, como que querendo sorrir timidamente, causava também aquela já conhecida falta de força nas pernas, a secura na garganta. Não sabiamos qual dos dois se estraçalharia no chão primeiro. Nem se algum de nós aprenderia a voar. Mas algo fazia nossos dois corpos quererem estar juntos inconscientemente, talvez pelo universo que se criava entre nossos estômagos toda vez que eles se encostavam.
     E esse passo, um único passo, de um em direção ao outro, foi inevitável. Um mergulho no vazio. A queda era tão rápida que aquele doce e intenso vento batendo forte contra o nossos cabelos, contra nosso rosto, colocaria forçadamente um sorriso estampado nos lábios mais desolados. Mas no nosso caso não foi preciso. E enquanto nos olhavamos mutuamente, eu me perguntava qual dos nossos sorrisos deu vida ao outro. 
     E durante a nossa queda, era impossível não se questionar quão louco é esse lugar chamado "pra sempre". Um lugar inabitável. Não é um horizonte alcançável que possa ser avistado quando se ergue a cabeça, ou um destino no fundo de um precipício. Muito menos um momento já vivido, guardado ou esquecido. 
     Se me perguntassem agora, o que é o "pra sempre", se é um lugar, um percurso, ou uma utopia, eu não saberia. Mas acredito que está mais próximo de ser o modo como você sorri livre e gostosamente, não se importando onde esse abismo vai terminar. E sem qualquer ajuda daquele vento doce e intenso que colocaria um sorriso arreganhado no mais sisudo dos rostos.



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Aquela segunda-feira de manhã, sabe?

     "Estar com você é ouvir aquele barulho de porteira enferrujada abrindo e calmamente me convidando pra entrar. É também sentir o aroma do café, já à mesa, e saborear o seu gosto forte me aquietando e me fazendo sentir mais presente.
     Estar com você é sentir meu mar de ondas tortuosas desaguar em um rio calmo de águas que dançam sutilmente, me conduzindo enquanto eu apenas boio, olhando para o céu. O destino nesse momento é o que menos importa, o balançar é tão suave...
     Estar com você é como andar de carona no meu próprio destino, te olhando dirigindo e acariciando os seus cabelos, vezemquando o seu rosto, sentindo sua barba cerrada, e torcendo do fundo da minha alma para que o trânsito esteja péssimo, ou pra que a gente se perca, enquanto eu me perco nos seus olhos, que me encaram profundamente, como se já soubesse os caminhos da estrada à nossa frente.
     Estar com você e ter que me despedir, é me sentir numa eterna manhã de segunda-feira. É ter aquela certeza no peito que o mundo pode esperar por mais cinco minutinhos. Só mais cinco minutinhos de nós dois..."





quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Caminho sem volta

      Você devia ter me ouvido. Em algum momento, pelo menos. Não a Freud, Gandhi, Jesus, seus pais ou quem quer que fosse. Sabe aquela lógica sem nenhum bom senso que martelava no fundo da sua alma e que muitas vezes só você entendia? E às vezes nem você conseguia. Aquela que de olhos fechados parecia clara, nítida e revigorante como um pulmão cheio de ar? Era eu.
     Mas você sempre tentava explicar a sua lógica com a dos outros. Tentava desenhar trilhas em florestas já devastadas ou falar o seu idioma por bocas alheias. Pegava tudo o que sentia e tentava novamente filtrar em outras pessoas. Sua mãe, sua vó, o zé do bar. Era como se um pedregulho tentasse passar em uma peneira. Então, eu lembro do seu rosto, era desesperado, era covardemente inocente, e você tentava buscar modos de exteriorizar o que sentia, mas nada funcionava. E no meio dessa covardia tímida, já esperada, eu buscava mas não via a coragem necessária. E via cada vez mais, menos você, menos eu, em nós. E via nossos desejos, nossas escolhas caminhando não com as nossas roupas, mas com as roupas dos outros. Lembro que eles chamavam isso de "estar na moda".
      O tempo passou e hoje, você se sente desesperadamente aliviado por poder, falsamente, depositar essa sua incapacidade de se sustentar com as próprias pernas em outras pessoas. Elas se tornaram suas muletas. "Não faço por meus filhos" "Se não fosse aquilo..." "Se não fosse fulano...". É o típico chihuahua que, seguro pela corrente, parti pra cima de um pitbull. Poe a culpa na corrente mas implora pra que seu dono não o solte, para que a corrente não estoure. "Ahh mas se estourasse você ia ver"... E todos aqueles "se" que você cultivou, acabaram se tornando um belo encosto pros braço, pros pés, pro pescoço. Pro corpo todo. E você agradece por estar tão acomodado neles, afinal porque reclamaria de algo tão macio e confortável?  
      Até que um dia você vai acordar de madrugada com seu próprio ronco, vai olhar pro lado e ver sua mulher, aquela com a qual você se casou porque a engravidou e que o sexo já é pior que uma punheta há tempos. Vai levantar, mijar, cagar, lavar o rosto. E quando se olhar no espelho, vai ver apenas uma parede. Exatamente aquela que está às suas costas. Não vai ver seus olhos cansados, sua boca, seu pescoço, sua testa franzida. Nada.
     E então vindo de algum lugar, talvez por de baixo da porta, ou pela fresta do vitrô, você vai sentir uma leve brisa gelada e contornante devaneiando calmamente até chegar aos seus ouvidos, percorrendo o caminho por toda a sua espinha, causando um arrepio seco e paralisante. Você, como já era de se esperar, vai covardemente tentar fugir pra um lugar seguro, mas eu não vou deixar que mova um fio de cabelo, e vou te fazer me enfrentar, como você nunca fez. E, mais uma vez, você vai olhar naquele espelho sem se ver. Quem vai estar nele agora sou eu, e eu te perguntarei olhando no fundo dos seus olhos: O que você fez comigo?

                                " Me desculpe, mas isso aí na minha frente não sou eu"

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Por entre a poeira

O que tu pensas que és, 
Na verdade, 
és leve brisa passageira
que já se foi, 
mas deixou seu aroma no ar. 
O que tu diz ser, 
e diz à todos, 
sempre seguido de batidas contra o peito, 
não passa de um trem 
que já descarrilhou e se desgovernou, 
e não tem como saber qual seu destino 
antes de chegar ao ponto final. 
Tudo aquilo que afirmas ser, 
não passa de uma memória 
guardada na mente de um corpo 
em constante movimento 
que piscou seus olhos, 
e quando os abriu, 
já não estava mais onde pensava. 
Porque teu prazer 
não está em construir. 
E nem propriamente na destruição. 
Mas sim, 
em sentir os olhos cegos 
com a poeira do que recém desmoronou, 
sem poder ver se o próximo passo 
será em falso ou não. 
E somente neste momento, 
tú és tú, verdadeiramente.