quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Gravidade

Dignidade para comer,
Morar, vestir-se
Dignidade ao sonhar,
Ao sorrir, ao despir-se
Sejamos dignos!
Disseram...

Mas quando a gente se enrosca a alguém,
Literalmente falando,
Quando entre as coxas não passa um fio
E há entre os lábios um rio
A gente nota que não nasceu pra amar alguém
De forma assim tão digna

Na verdade, queremos passividade
Pathos, do grego
Queremos dar o sinal, subir e dormir
Com a cabeça confortavelmente recosta ao vidro
Babando, amando.

Sem lutas,
Sem desafios,
Sem evolução.

Querer negar a mim mesmo, você
É tão possível quanto,
De corpo nu,
Vencer a gravidade

Quanto mais longe eu te lançasse
Com mais força você retornaria
Destruindo tudo em mim
Me mostrando quão fraco meu abraço,
Essa mistura embaralhada de braço, calor e amasso
Ainda pode ser

Porque o meu peito está gravitado ao seu
E o fundo obscuro dos nossos olhos
Ainda está em chamas
Queimando de raivosa doçura
Lutar contra essa gravidade nos fortalece
Querer vencê-la
Nos enlouqueceria

Sejamos realistas,
Não podemos vencê-la,
Não podemos conter um incêndio.
Lutemos,
Mas por favor,
Não sejamos loucos




quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Penteadeira


São 08h15 e eu ainda não consigo entender como quatro colheres de açúcar ainda não adoçaram o meu café. Um leve sentimento que ainda não consigo identificar me sufoca, como um lenço amarrado à garganta, e é horrível olhar para os lados sem ter alguém para retirá-lo. Ou dividi-lo. Se estivesse aqui me diria que isso é apenas barriga vazia, e faria algo para comermos. Assim eu poderia dizer que estava errado, que estava apenas implicando comigo. Depois riríamos juntos. Nesse momento eu já nem me importaria com meu chefe mal humorado, com o ônibus lotado, com a semana de provas da faculdade. É estranho colocar em alguém essa responsabilidade sobre mim, mas era como se eu me sentisse tão segura que pudesse abrir as trancas. Sabe, deixar fugir tudo de bom e de ruim. Ficar leve. Você sempre teve o dom de desatar os lenços do meu pescoço pela manhã.
Faço uma omelete, deixando cair uns pequenos caquinhos de casca de ovo e intragavelmente sem sal. Nem sei por que a faço assim, eu odiava sua omelete. Não a como. Me sento em frente a penteadeira pra me maquiar antes de sair. Enquanto passo o batom, me olho. Como você olharia. Não há nada nesse mundo que eu goste mais do que sentir seus olhos ainda nos meus depois que desvio o olhar. Às vezes me olho no espelho da bolsa e, pelo reflexo, sinto seu olhar buscando o meu. Quando nos beijávamos e nos despedíamos, podia o sentir mesmo a kilometros de distância, ainda me admirando, como se o seu olhar pudesse dobrar esquinas por toda a cidade.
Começo a “fazer” os cílios, decido deixá-los longos e desenhados. Sempre me perguntam se são postiços. Sabe, noite passada eu tive um sonho, não me lembro exatamente de tudo, mais algumas coisas ainda estão vivas em minha memória. Sonhei que estava dentro de um ônibus, mas assim que havia entrado me dava conta de que havia pego o ônibus errado. Então me desesperava a tocar o sinal, mas o ônibus não parava. Eu gritava e dizia: “Vou descer, para!”. Mas quanto mais eu gritasse, mais o ônibus parecia acelerar. Então eu já cansada de berrar e espernear, caí sem energias na minha cadeira. Quando percebi a minha frente havia um volante, um câmbio, pedais... Apenas pisei no freio cautelosamente, o ônibus foi parando, parando... E eu desci. Me lembro de ter esquecido aonde de fato eu queria ir. Acordei.
Quando começo a passar a base, meu celular toca. É você. Meu peito aperta. Por algum motivo me vem à tona de um modo muito forte, quase como uma pancada, a lembrança de quando você se levantava toda noite antes de dormirmos para trancar a porta. Eu jamais imaginei que sentiria tanta falta disso. Minha respiração acelera, e meus olhos ameaçam sujar o rímel, mas decido não atender. Ainda não é o momento, ainda não consigo. Enquanto conserto o pequeno estrago feito pelo simples som de um trinco sendo fechado em uma noite de terça feira, me questiono que talvez eu devesse parar de lutar comigo mesma, parar de aumentar os meus caminhos, de impedir simplesmente de que o destino me leve.
O celular clareia e me mostra uma mensagem sua: “Hoje à noite passo na sua casa, precisamos conversar.” Em poucos instantes chego à conclusão de que deixarei a porta trancada, mas que posso deixar a chave em cima do muro, naquele cantinho que você sempre soube. E assim, de uma forma menos culpada, te deixar entrar. Deixar seus olhos novamente me tocarem, sua boca, seus dentes, suas costas. Mas quando imagino essa aproximação me sinto tão dentro de você, que posso me ver através dos seus olhos. E me vejo escapando novamente. Me vejo partindo. Pego o celular e respondo a mensagem: “ Não vem, não quero!”
Me olho mais uma vez no espelho e vejo duas. Aquela que é sua, e ainda demora a querer ser de outro. E também aquela que está partindo de vez. Talvez no fundo eu ainda queira somente que você insista. Que segure o meu braço e impeça esse meu outro eu que quer partir. Talvez eu só queira saber quantas esquinas o seu olhar ainda vai dobrar só pra não perder o meu de vista.

Termino a maquiagem e me sinto linda. Me sinto forte, me sinto minha. Estou em cima da hora. Pego minha bolsa e vou pra rua com um sorriso no rosto. Mas antes de sair me certifico de ter deixado minhas dúvidas, meus receios e os barulhos de trinco das terças feiras à noite bem guardados. Dentro da gaveta da penteadeira


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Utopia

     Gosto da sensação de expectativa
     Que sentir os olhos fechados
     Em nossa montanha russa me causa.
     Esse pequeno lapso temporal
     Onde não se sabe se vai continuar subindo
     Ou começar a despencar
     Sentir a tua suada mão buscar abrigo
     Agarrando-se a minha
     É como éter no ar

     Eu despencaria cortante
     Por dentro de você

     Carrego em minha boca uma utopia amarga
     Que já foi chamada sonho
     E eu a cuspiria pra dentro da tua
     Misturar o amargo ao azedo
     Depois lamber os beiços
     Pra numa frenética dança de línguas
     Que não sabem da onde vem nem pra onde vão
     Livrar-se do peso da perfeição

     Se não se pode ter um dia de descanso
     (Ou uma vida inteira)
     Sentado à beira-mar
     Catalogando prazeres
     Degustando emoções
     Por quê, pra que tantas perfei(o)ções?

     Na gostosa banalidade da vida,
     Varrida pra baixo do tapete,
     Todo amor é barato
     E pode ser encontrado ali na esquina
     Todo amor é ordinário, espontâneo, safado
     Todo amor é indigno
     do romantismo que lhe cabe

     Ainda bem.