quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Luzes

     No fundo, tudo são apenas memórias. São só luzes esvoaçadas e desfiguradas, sendo guiadas descontroladamente por uma estrada sem fim. Exatamente como as que vejo agora. De um lado vermelhas, do outro brancas. Umas correm alucinadamente, as outras também. E vão como quem tem pressa de saber aonde vão, afinal. Começa uma leve garoa e eu percebo as pessoas a minha volta se escondendo. Em guardachuvas, em coberturas, comércios, orelhões. Elas correm com medo de se molhar ou, talvez, da chuva em si. Decido continuar andando. Na verdade, eu nem percebo os primeiros pingos, as primeiras gotas escorridas na minha cara, no meu pescoço, e vou simplesmente andando. 
     Entro então naquela rua de ipês amarelos, que em época de primavera forram o chão. Pra minha surpresa é primavera, e a chuva, já mais forte e pesada, vai desenhando naquele tapete dourado, os levando embora de mim. Com seus filetes de água, com seus caminhos tortuosos e eu vou pisando por cima delas, com minha bota encharcada e vendo as borbulhas de ar que saem na lateral dos meus pés enquanto as sinto massageando os meus calcanhares. A minha roupa, já tão ensopada, me faz pensar por um minuto, que talvez eu devesse me esconder, não por medo de estar molhado, porque pra isso já seria tarde, mas porque talvez eu ainda tivesse algum medo da chuva. Porém percebo que estou na sua rua, ao ver aquele seu portão tão velho e aquele seu muro baixo por onde o carteiro jogava as suas correspondências, e sigo caminhando até ele. Você está lá me esperando, te cumprimento e te beijo por cima do portão, e você me convida pra entrar. É o que eu faço.
     Sento-me em seu sofá, derretendo e pingando, talvez o estragando, por ser de camurça e roxo, digo isso mais pela camurça do que pela cor. Sinto-me mal por isso, mas você diz que tudo bem, me pergunta se quero roupas secas. Claro que não, eu não as quero, gosto das minhas roupas assim e assim permaneço. Você me serve um pouco de chá quente, algumas coisas pra comer, mas eu não tenho fome. E em pouco tempo estamos em sua cama, abraçados. Você feliz enrolada no meu corpo gelado e úmido, e eu tão pensativo abraçado no teu corpo quente e aconchegante. Eu deveria ter tirado as minhas roupas, mas achei melhor não. Tiro apenas as minhas botas. E continuamos deitados, até eu perceber que você não está bem com isso, com esse abraço molhado, com esse bota pingando em seu tapete, com o seu sofá roxo de camurça estragado. Não era o que você me mostrava, nem o que sua boca dizia, mas era assim. Achei também que você merecia algo melhor, alguém que não tivesse cheiro de cachorro molhado. Não necessariamente alguém que cheirasse otimamente bem, mas que pelo menos não cheirasse mal, ou que ao menos cheirasse a sabão em pó. Mas sempre dizia que gostava assim, e que tudo bem. Mas isso não é tudo bem. Decido me levantar e ir embora, deixando aquela poça em sua cama. Pego minhas botas, ainda com água, as calço e saio novamente. Não espero nem que abra o portão, apenas ergo um pouco os fundos das calças e passo por cima daquilo que você chamava de muro. Quando na frente do seu portão, encontro o carteiro que, a me ver ali, entrega-me as suas correspondências. Digo que não moro ali, as devolvo e desapareço. 
     No caminho de volta, passando novamente pela rua de ipês amarelos, eu sinto que, talvez, possa realmente existir pessoas que gostam de pessoas que tenham as roupas molhadas pela chuva. Talvez não propriamente pela roupa, mas porque enquanto tantas outras estavam embaixo dos orelhões, das coberturas, havia alguém que estava ali andando, em meio aquelas luzes vermelhas e brancas que vem e que vão. Não se importando em não ter as roupas cheirando otimamente bem, nem do peso que elas ficariam ou como colam no corpo e na espinha, as congelando. Sinto que talvez eu pudesse voltar e te cumprimentar por cima daquele muro baixo já tão destruído, e poderíamos entrar e tomar uma taça de vinho enquanto eu aceitaria as suas roupas quentes e confortáveis, e deitaríamos, e teríamos um abraço confortante, seco e quente para ambos os braços e corpos. Também poderia aguardar na frente do seu portão até aquele carteiro voltar, e quando me entregasse as suas correspondências, eu não diria nada, somente voltaria pra dentro, depois de arrumar um pouco aquele quadro que fica na sua porta com uma simetria impecável. Mas antes que eu pudesse pensar nessa possibilidade com alguma consideração, sinto tudo isso, ou só isso, se desfigurando e se esvoaçando, e antes que pudesse ou quisesse impedir, tudo se perde sendo conduzido pra uma direção qualquer, como aquelas luzes brancas e vermelhas que não sabem pra onde vão. Como aquelas flores douradas sem destino algum, guiadas pela chuva... E decido simplesmente continuar caminhando. 
     Na verdade, caminhar sempre foi o meu melhor jeito de me encontrar. E eu preciso estar sozinho agora. Essa solidão é como uma estaca procrastinada cravada em meu peito. Causa dor, sufoca e martiriza, mas no fundo eu sei que faz parte de mim. Por vezes eu penso em arrancá-la e atirá-la para longe, sem me importar se atingiria alguém ou não, mas a verdade é que tentar tirá-la poderia ser um erro porque sem ela, talvez, eu não sobrevivesse. Durante a minha caminhada, lembrando mais uma vez daquele seu portão tão velho e mal cuidado decido, mesmo sem olhar pra trás, que um dia, num futuro não muito distante, ainda volto. A chuva já está cessando, talvez volte com minhas roupas já secas ou, melhor ainda, talvez eu até as lave com sabão em pó, quem sabe.




quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Crua, nua, sua.



Se embebeda comigo
Faça que sou a taça e me transborda
Pense que sou o vinho e me degusta
Me inventa, me descobre, me assusta

Me chama de puta, de linda, de sua
Me joga na mesa, derruba esses pratos
E me coma crua
Ou então não me coma, 
Me traga, me engula nua

Diz não ligar pra o que eu digo
E me faça mudar de opinião
Enquanto me beija o umbigo
E me faz trocar dez vezes
Entre o sim e o não

Só não me deixe pensar 
Ser só essa mulher
Que você diz amar
Quando chega à noite da rua

E que diz a todos,
Mesmo sem o bem que um querer exige,
Ser sua




quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A viajem


     Ela era tão linda. Seu rosto era atraente, sua voz era macia e eu por algum motivo era incrivelmente apaixonado até por seus pulsos. Tão finos, tão delicados, tão necessitados de mim os segurando firmemente. Poderia mapear cada canto do seu corpo, poderia reconhecer cada cheiro dele e, caso me perdesse, não haveria problema algum. Moraria nele como um náufrago perdido o resto de minha vida. Gostava do modo como sabia se encaixar em mim independente do meu humor. Às vezes era mansa, às vezes louca. Era incorrigivelmente perfeita. Mas naquele fatídico dia, o que eu mais temia aconteceu.
     De manhã ao acordar, notei que ela havia me mandado uma mensagem SMS: “Amor, o que acha da gente fazer uma viajem juntos esse final de semana?” Entrei em choque. Admito que fui covarde, talvez fraco, mas ainda não estava preparado para encarar essa situação, para digerir isso com normalidade. Estaria eu fazendo tempestade em um copo d’água? Seria na verdade uma situação normal, banal entre qualquer casal? Poderia eu me acostumar com essa nova realidade? Confesso... Não consegui. Terminamos. 
     Eu estava cego. Suportaria surtos de ciúme, tpm’s assassinas e até mesmo, quem sabe, uma traição. Mas uma viajem, com “j”, foi mais do que meu coração apaixonado poderia suportar. Nunca mais nos vimos. Fiquei sabendo, por uns amigos em comum, que agora está na faculdade, acredite : Letras. Ainda sinto saudades dela. Quem sabe um dia, quando seu português estiver melhor, sei lá...





quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Magnetismo

A estrada estreita por onde eu caminhava
Já não existe mais
Na verdade, não há mais estradas
O que existe é um magnetismo 
Que me atrai simultaneamente 
Para ambos os lados,
Com uma soberba que me faz esquecer
Estar no centro da situação.
Eu sinto todo essa força 
Atraindo meus dois polos
Norte e sul,
A ponto de não saber 
Qual desses lados é mais forte
E me encontro entre eles, perdido
E ignorado. Sem saber pra qual ceder.
Se ao que sente demasiado, 
que sofre e que se entrega,
Que faz do momento a sua morada
Ou ao indiferente, seguro e petulante
Que parece sempre saber cada passo que dá
Sinto-me ainda mais confuso 
Ao perceber que as minhas duas metades
Avançam em sua direção
Porém por caminhos diversos, 
cada uma à sua maneira,
E com isso, me partindo ao meio
Fazendo-me, aparentemente, 
ter que escolher, entre:
Amar ou ser amado

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A mística por trás de uma calcinha

    Pobre do homem que pensa que as mulheres escolhem a calcinha que usarão numa noite especial do mesmo modo que nós homens escolhemos a nossa cueca: A que não estiver furada. Esse símbolo de sensualidade feminina esconde uma das maiores místicas desse ser venusiano de pele macia e fala (nem sempre) mansa.
Nada faz uma mulher se sentir mais desejada do que um homem que ama vê-la de lingerie, que presta atenção na cor, na textura, no tamanho ou então que a peça para vestir "aquela" calcinha só para ele. No fundo é um pedaço minúsculo de pano, mas que faz aflorar a feminilidade da mais indiferente das mulheres. Apesar de muitos homens acharem que elas só servem para ser tiradas, um cara que sabe dar vida e alimentar essa fantasia real de que, ela não escolheu aquela calcinha na gaveta ao acaso, e que consegue fazer com que ela sinta intensamente toda essa sensação de sentir-se linda e de, não só fazer sentir desejo, mas de sentir-se realmente desejada, está um passo a frente de ter uma mulher verdadeiramente confiante, inteira, entregue e, consequentemente, desejosa. Um furacão.
Uma lingerie, escolhida minuciosamente na gaveta para aquela ocasião especial, não esconde somente aquilo que a maioria dos homens pensa, esconde um universo feminino de entrega e sensações que são vividas de uma forma tão intensa, seja por uma vida inteira ou por uma noite, que nós homens, reles mortais, jamais poderemos entender, quanto menos sentir. A nós, cabe apenas admirar e mergulhar, sem pressa e sem medo, nesse universo que é cada mulher, por trás de sua calcinha.





sábado, 26 de outubro de 2013

Nem hora, nem lugar

     Os buracos dos tijolos na parede pareciam olhos, escancarados, atentos a cada movimento nosso. Aqueles gatos se esgueirando entre os carros e as latas de lixo não pareciam confiáveis. pareciam querer atrair a nossa atenção. E aquelas janelas? Todas elas. Mesmo as mais distantes, pareciam ocultar silhuetas curiosas a nos examinar, nos julgar e, até mesmo, nos invejar. Porque era o que eu sentia que o resto do mundo sentia de nós. Enquanto, naquele beco escuro, transformávamos aquela tensão estremecedora de pernas em um tesão de batimentos acelerados, respirações insuficientes e um prazer tão intenso quanto podíamos encontrar sem nos perder no caminho de volta.Um tesão daqueles que se pode sentir enraizado no último dos molares. Daqueles que nunca escolheu hora, nem lugar.



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Quem tem boca vai a roma. Será?

     Eu não sei exatamente em que época essa frase foi criada, quem é o seu autor ou onde morava. Mas acredito que deve ter vivido muito próximo ou até mesmo na própria Roma, ou que pelo menos viveu numa época muito diferente da nossa atual. Hoje em dia, tenho diversos motivos pra acreditar que uma boca que não para de falar não leva a lugar nenhum, é insuportável e altamente previsível. Um par de ouvidos atentos e interessados, com certeza, são muito mais valiosos, porque vivemos em uma época em que as pessoas não são ouvidas.
     Qual foi a última vez que você perguntou a alguém “Como você está?” de uma forma menos automática, menos mecânica, mais humana? Como quem realmente estava interessado em ouvir o que o outro tinha a dizer? E não como quem faz só esperando a sua hora de falar sem parar? Que tal se propor um desafio, um dia pra se tirar do centro do universo, um dia em que seus problemas não são os maiores, seus medos não são os mais terríveis e nem mesmo as suas paixões as mais intensas. Um dia pra se propor a simplesmente ouvir. Você verá um milagre acontecendo. Possivelmente não dirá uma palavra, mas quando sair dirão: “Nossa como esse rapaz(moça) é bom(boa) de conversa!”
     Freud diz em seu livro “ O futuro de uma ilusão”, escrito há mais de cem anos, algo parecido com : “A humanidade não para de evoluir em sua dominação da ciência e da natureza, porém, no que diz respeito ao convívio social e no trato com o próprio ser humano, estagnou-se, e alguns casos piora cada vez mais”. E infelizmente, isso parece cair feito uma luva no mundo que vivemos, apesar de ter sido escrito há um século. Talvez porque o problema sempre parece algo distante, algo que deveria ser mudado pelos outros e não por nós. É engraçado perceber que para algumas coisas é necessário acreditar que a solução vem justamente do caminho inverso. De baixo pra cima, do um pro todo , do vizinho ao país inteiro. 
     Eu não sei ao certo se quem tem boca vai a Roma, mas se sim, quem tem um belo par de ouvidos vai á Júpiter. Isso porque saber escutar sempre vai ser uma dádiva, e não um sinal de fraqueza, falta de atitude ou submissão. Afinal, quem é cheio de si, transborda e exala a sua essência sem precisar sequer abrir a boca.






sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Vezemquando

Enquanto eu mesma me abraçava,
Ou pelo menos tentava,
Com um abraço forte e cerrado
Você, como uma serpente
Esgueirou-se entre mim e meus braços
Ocupando aquela fresta sem dono
E me mostrou que eu jamais seria forte o bastante
Pra abraçar a mim mesma
Da mesma forma que abraçaria a você

Enquanto eu buscava nos bons vinhos
Toda aquela torpe sensação
De poder, por um momento,
Flutuar entre o certo e o errado
Sem qualquer julgamento
Meu ou de outrem,
Você me deixou provar do teu gosto
E me fez perceber que,
Entorpecida, de fato,
Eu nunca havia estado

Enquanto eu buscava fugir
E corria, sem olhar pra qual direção
Você me estreitava às estradas
E me dizia sempre pra seguir em frente
Sem olhar pra trás.
E as sinalizou, indicando pra onde
Eu fosse ao teu encontro.
E, agora, diz querer me deixar...

Não percebes que sem você
Eu sou só uma mulher a andar por aí
Distribuindo frouxos abraços,
Seguindo por ruas confusas
E sem sequer poder me embebedar,
Como outrora?

Não sei se vai.
Mas, se for o que quer,
Digo-te que vá...
Que vá e que não volte nunca mais!
Mas antes,
Deixe-me dizer algo sobre meus “nunca mais”...

Vezemquando,
Eles duram menos do que cinco minutos.
E quando se tratar de nós
Ou ainda,
Tratar-se também
De partidas ou despedidas,
Pense sempre se tratar de um vezemquando




quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O mau (com u) amante

Hoje acordei como sempre
meio desgostoso da vida
com passarinhos cantando na janela
uma melodia encardida

E me lembrei que eu não gosto de música,
nem de poesia, nem de rima...
que se danem!

Mas pra você, e só pra você,
eu já fiz uma serenata
Tão desafinada, engasgada, sem graça

E no caminho pra sua casa
apressado pela vontade de te ver
passei por um mendigo,
tinha um rosto tão cansado
uma aparência tão suja
e veio logo me pedindo :
Ei, me dá um trocado? é pra comer...
Tenho e não dou, vai caçar o que fazer!

E no ônibus aconteceu de novo,
eu já estava sentado naquelas cadeiras azuis
com a cabeça encostada no vidro
lembrando do seu sorriso
e entrou uma velha,
arrastando aquelas suas pernas preguiçosas
já doida pra sentar
me virei e ronquei, até babei

Pouco antes de chegar à sua casa
e te perguntar "Tá tudo bem?"
e te ver respondendo, movendo seu lábios
bem devagarinho, concluí...

Que eu sou tão mau, indigno e 
inescrupuloso quanto um sapato velho
daqueles jogados no fundo da sapateira,
ou pior ainda, daqueles pendurados nos fios
que já valiam menos do que uma pipa
velha e rasgada

Mas também, que eu te amo indiscutivelmente
e que, no fim das contas, isso acaba sendo
a minha única qualidade

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Suicídio

Eu não sei exatamente o quanto de mim
têm no meu caminhar, 
no modo como balanço as mãos enquanto falo 
ou no jeito como me espreguiço.

Também não sei se aquela sua mania besta
de estalar os dedos, ou de morder os lábios
quando está impaciente, ou até mesmo
de olhar pro céu quando não sabe o que dizer,
foram roubadas inconscientemente de mim
ou se é algo proposital.

O fato é que, enquanto mergulhávamos
em um suor que jamais saberemos dizer
se era meu ou seu,
você me arranhava as costas e nem notava
que um pouco de mim se escondia
embaixo da suas unhas

E em cada beijo apaixonado,
em que eu sugava o ar dos seus pulmões,
acabava por trazer um pouco de você
também pra dentro de mim.

Me matar seria ao mesmo tempo
cometer um suicídio.
Porque um pouco de mim é você,
e um pouco de você sou eu.




"Toda mulher precisa de um homem que, de vez em quando, a conduza com firmeza a lugar nenhum."

domingo, 22 de setembro de 2013

Um abismo chamado "pra sempre"

     À beira de um abismo chamado "Pra sempre", nos encaravamos. A tensão fazia os cantos dos lábios tremerem, como que querendo sorrir timidamente, causava também aquela já conhecida falta de força nas pernas, a secura na garganta. Não sabiamos qual dos dois se estraçalharia no chão primeiro. Nem se algum de nós aprenderia a voar. Mas algo fazia nossos dois corpos quererem estar juntos inconscientemente, talvez pelo universo que se criava entre nossos estômagos toda vez que eles se encostavam.
     E esse passo, um único passo, de um em direção ao outro, foi inevitável. Um mergulho no vazio. A queda era tão rápida que aquele doce e intenso vento batendo forte contra o nossos cabelos, contra nosso rosto, colocaria forçadamente um sorriso estampado nos lábios mais desolados. Mas no nosso caso não foi preciso. E enquanto nos olhavamos mutuamente, eu me perguntava qual dos nossos sorrisos deu vida ao outro. 
     E durante a nossa queda, era impossível não se questionar quão louco é esse lugar chamado "pra sempre". Um lugar inabitável. Não é um horizonte alcançável que possa ser avistado quando se ergue a cabeça, ou um destino no fundo de um precipício. Muito menos um momento já vivido, guardado ou esquecido. 
     Se me perguntassem agora, o que é o "pra sempre", se é um lugar, um percurso, ou uma utopia, eu não saberia. Mas acredito que está mais próximo de ser o modo como você sorri livre e gostosamente, não se importando onde esse abismo vai terminar. E sem qualquer ajuda daquele vento doce e intenso que colocaria um sorriso arreganhado no mais sisudo dos rostos.



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Aquela segunda-feira de manhã, sabe?

     "Estar com você é ouvir aquele barulho de porteira enferrujada abrindo e calmamente me convidando pra entrar. É também sentir o aroma do café, já à mesa, e saborear o seu gosto forte me aquietando e me fazendo sentir mais presente.
     Estar com você é sentir meu mar de ondas tortuosas desaguar em um rio calmo de águas que dançam sutilmente, me conduzindo enquanto eu apenas boio, olhando para o céu. O destino nesse momento é o que menos importa, o balançar é tão suave...
     Estar com você é como andar de carona no meu próprio destino, te olhando dirigindo e acariciando os seus cabelos, vezemquando o seu rosto, sentindo sua barba cerrada, e torcendo do fundo da minha alma para que o trânsito esteja péssimo, ou pra que a gente se perca, enquanto eu me perco nos seus olhos, que me encaram profundamente, como se já soubesse os caminhos da estrada à nossa frente.
     Estar com você e ter que me despedir, é me sentir numa eterna manhã de segunda-feira. É ter aquela certeza no peito que o mundo pode esperar por mais cinco minutinhos. Só mais cinco minutinhos de nós dois..."





quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Caminho sem volta

      Você devia ter me ouvido. Em algum momento, pelo menos. Não a Freud, Gandhi, Jesus, seus pais ou quem quer que fosse. Sabe aquela lógica sem nenhum bom senso que martelava no fundo da sua alma e que muitas vezes só você entendia? E às vezes nem você conseguia. Aquela que de olhos fechados parecia clara, nítida e revigorante como um pulmão cheio de ar? Era eu.
     Mas você sempre tentava explicar a sua lógica com a dos outros. Tentava desenhar trilhas em florestas já devastadas ou falar o seu idioma por bocas alheias. Pegava tudo o que sentia e tentava novamente filtrar em outras pessoas. Sua mãe, sua vó, o zé do bar. Era como se um pedregulho tentasse passar em uma peneira. Então, eu lembro do seu rosto, era desesperado, era covardemente inocente, e você tentava buscar modos de exteriorizar o que sentia, mas nada funcionava. E no meio dessa covardia tímida, já esperada, eu buscava mas não via a coragem necessária. E via cada vez mais, menos você, menos eu, em nós. E via nossos desejos, nossas escolhas caminhando não com as nossas roupas, mas com as roupas dos outros. Lembro que eles chamavam isso de "estar na moda".
      O tempo passou e hoje, você se sente desesperadamente aliviado por poder, falsamente, depositar essa sua incapacidade de se sustentar com as próprias pernas em outras pessoas. Elas se tornaram suas muletas. "Não faço por meus filhos" "Se não fosse aquilo..." "Se não fosse fulano...". É o típico chihuahua que, seguro pela corrente, parti pra cima de um pitbull. Poe a culpa na corrente mas implora pra que seu dono não o solte, para que a corrente não estoure. "Ahh mas se estourasse você ia ver"... E todos aqueles "se" que você cultivou, acabaram se tornando um belo encosto pros braço, pros pés, pro pescoço. Pro corpo todo. E você agradece por estar tão acomodado neles, afinal porque reclamaria de algo tão macio e confortável?  
      Até que um dia você vai acordar de madrugada com seu próprio ronco, vai olhar pro lado e ver sua mulher, aquela com a qual você se casou porque a engravidou e que o sexo já é pior que uma punheta há tempos. Vai levantar, mijar, cagar, lavar o rosto. E quando se olhar no espelho, vai ver apenas uma parede. Exatamente aquela que está às suas costas. Não vai ver seus olhos cansados, sua boca, seu pescoço, sua testa franzida. Nada.
     E então vindo de algum lugar, talvez por de baixo da porta, ou pela fresta do vitrô, você vai sentir uma leve brisa gelada e contornante devaneiando calmamente até chegar aos seus ouvidos, percorrendo o caminho por toda a sua espinha, causando um arrepio seco e paralisante. Você, como já era de se esperar, vai covardemente tentar fugir pra um lugar seguro, mas eu não vou deixar que mova um fio de cabelo, e vou te fazer me enfrentar, como você nunca fez. E, mais uma vez, você vai olhar naquele espelho sem se ver. Quem vai estar nele agora sou eu, e eu te perguntarei olhando no fundo dos seus olhos: O que você fez comigo?

                                " Me desculpe, mas isso aí na minha frente não sou eu"

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Por entre a poeira

O que tu pensas que és, 
Na verdade, 
és leve brisa passageira
que já se foi, 
mas deixou seu aroma no ar. 
O que tu diz ser, 
e diz à todos, 
sempre seguido de batidas contra o peito, 
não passa de um trem 
que já descarrilhou e se desgovernou, 
e não tem como saber qual seu destino 
antes de chegar ao ponto final. 
Tudo aquilo que afirmas ser, 
não passa de uma memória 
guardada na mente de um corpo 
em constante movimento 
que piscou seus olhos, 
e quando os abriu, 
já não estava mais onde pensava. 
Porque teu prazer 
não está em construir. 
E nem propriamente na destruição. 
Mas sim, 
em sentir os olhos cegos 
com a poeira do que recém desmoronou, 
sem poder ver se o próximo passo 
será em falso ou não. 
E somente neste momento, 
tú és tú, verdadeiramente.





terça-feira, 27 de agosto de 2013

Em tempos de café expresso

  Após uma noite de beijos, suores e sabores trocados, quando meu corpo ainda se recuperava da experiência de uma "petite mort", meu coração, ainda acelerado dentro do peito, buscava consolo nos seus olhos enquanto se acalmava, enquanto todo o oxigênio daquele quarto parecia não ser suficiente. Nós olhávamos secamente. O olhar de duas almas desgastadas por sentimentos brandos, suores sem sal e cafés expresso. Porém, pela primeira vez, foi como se não nos olhássemos com os olhos, mas com o que há no fundo obscuro deles. Seria isso uma janela da alma, esta já tão enjoada de rótulos, de pretextos e mesmisses, ou apenas mais uma cavidade repleta de sangue, músculos e toda essa coisa qual a única finalidade é apodrecer?
     Você trazia um certo peso, uma certa tristeza estreitamente doce no olhar, que ao primeiro choque, me intrigou. Nem conquista, nem asco, e com certeza muito longe de desinteresse. Carregava uma beleza não estereotipada, e essa impressão descia suavemente pela minha garganta deixando seu gosto por onde passava. Lábios, boca, bochechas, gengivas, língua, garganta. Como um bom vinho. E alí, mesmo que de relance, durante uma rápida troca de olhares, sentia que já a devorava, já a consumia e a sentia novamente.
     Pela janela do nosso quarto era possível ver a água caindo, fina e desaritmada. E uma gota, intrusa, pequena e incessante pingava na nossa cama. Tarde demais pra perceber, tarde demais pra arrumar ou se importar. Não incomoda. Mas também não deixa em paz. Era a natureza cuspindo sua indiferença sobre nós. E nos fazendo lembrar quem existe pra quem.
     E sabe, não é de todo ruim ser insignificante. Talvez não viremos filmes de cinema, e talvez depois de nossa morte não sejamos lembrados pela humanidade. Mas você se importa? Pensei. Enquanto havia a colocado deitada, já sem roupa, e desenhava com minha barba em seu corpo como um andarilho qualquer que vai sem pressa nenhuma de chegar a lugar algum. Suspeitei que não se importasse, pelo modo como suas covinhas pareciam estar pintadas à mão em seu rosto, e nesta hora, pensei quão bom foi não estragar tudo dizendo algo ruim. Nem dizendo algo bom, ou dizendo qualquer coisa. Se o fizesse talvez não escutasse a sua respiração e perderia o ritmo do seu coração batendo acelerado contra o meu.
     Enquanto estávamos ali, o resto do mundo continuava girando, ignorando por completo aquelas duas almas de olhares desgastados, vivendo em épocas de amores brandos, suores sem sal e cafés expresso. E as gotas, naquele quarto, naquela cama, por sua vez, continuaram pingando exatamente do mesmo jeito. Porém, não mais só de chuva.
     Nós dois, em uma fria e chuvosa noite de inverno brindando a nossa deliciosa insignificância, juntos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A garota do momento

Lembrou-se quando aquele velho esquecido
Não esquecido por ser da escória, 
Era apenas mais um velho esquecido da memória, 
Lhe deu uma ideia sem pé nem cabeça, 
Mas pensando bem, quem sabe, 
Por ser algo tão demente, aconteça. 
Disse: Mocinha, percebe que tudo a sua volta, 
Quando você se solta, 
Parece não existir do lado de fora,
Mas sim do lado de dentro? 
Tal pergunta a fez calar, e pensar por um momento.
E se vivesse de tal forma, desvairada e intensa,
Inconsequente e divertida, que não pudesse saber,
Nem com reza braba ou macumba encardida,
Se vive um sonho ou realidade? 
O que é mentira ou o que é verdade?
E ela, que não fugia da raia, e nem perdia uma briga, 
Daquele dia em diante, tomou a loucura desse velho
Como seu trilho. Içou as velas e se lançou. 
E respondia sempre: Ah eu me arrumo, 
Quando alguém lhe perguntasse:
Mas menina, qual o teu rumo? 
E todo dia era assim, 
As flores pareciam lhe dar bom dia,
E o seu gato, por todos os deuses do céu e do inferno, 
lhe sorria. 
Estava perdida. E era tão bom não se encontrar. 
Não se achar. 
E era como ser um daqueles dentes-de-leão
Soprados pelo vento, só voando.
Foda-se o depois. 
E se o depois estiver acompanhado do passado, 
Foda-se os dois. 
Agora ela é a garota do momento, 
Sendo conduzida pelo vento. 
Não sabia mais ao certo o que era sonho.
Não sabia mais se o mundo real 
era quando da cama caía, 
E os olhos abria, ou se quando se deitava, 
E os olhos cerrava. 
Mas sorria. Só sorria.



terça-feira, 20 de agosto de 2013

"Por mais que os pontos estejam incisivos, as vírgulas desafogantes e a entonação perfeita, fala como alguém que quer demonstrar algo, não como quem o sente. Talvez porque se realmente o sentisse, nada precisaria ser dito."

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"Sabe o que é mais gostoso do que um abraço?
Esse simples pesar do meu corpo contra o teu.
Sem carícias, sem afagos, só meu corpo pesando sobre o teu,
enquanto esvazio de uma forma sutil e quase desapercebida
o ar dos teus pulmões, inúteis por sinal, quando o que respiras sou eu,
não oxigênio. Só meu corpo pesando contra o teu
e deixando a gravidade unir o que já não sabe mais ficar separado."

Choque térmico

"Talvez eu tenha a conhecido em algum canto
 Jogada em alguma esquina
 Ou em alguma mesa de bar.
 Desiludida, desamparada, perdida,
 Nadando em seu próprio rio salgado
 Sem fôlego, nem ar
 Sem motivos pra dizer sim
 E sem forças pra dizer não.
 Se ela precisar de mim algum dia
 Talvez eu lhe estenda as mãos novamente
 E os pés, as pernas, o corpo todo
 Se não for eu quem vai salvá-la,
 Então que me afunde junto com ela
 Pra onde quer que seja.
 Junto com seus olhos lindos, porém frios
 Que em nada se parecem com seus lábios,
 Quentes e carnudos. Um choque térmico de tesão.
 Ela me fita com desejo, me come com os olhos
 E me beija com desprezo.
 Um desprezo nojento e ao mesmo tempo delicioso
 Ela oscila entre o muito e o pouco,
 Entre o tudo e o nada
 Entre o me bate, me chupa e o me larga.
 Seria enlouquecedor se não fosse tão gostoso
 Se não fosse tão intenso
 Se não fosse tão ela."




No fundo da xícara

      Precisava sentir teu cheiro, me cobrir com os véus que teu aroma desenhava no ar. E você sabe, uma mulher, assim como uma boa bebida, se degusta com todos os sentidos, com todos os costumes e (su)posições. Enquanto te sugava, teus olhos, sempre com olheiras, revezavam entre minha boca, minha roupa e meus discos do Frankie vallie. Nunca me enganara sobre eles. Dizia serem antiquados de mais ou cheios de mofo de mais, mas tua sobrancelha esquerda me dizia o contrário, conversávamos sempre. Com teus pés também, sempre inquietos, sempre atrasados. Teus pés : A parte mais apaixonada do teu corpo. Enquanto me batia, me jogava as tralhas na cabeça e me jurava eternidades escondidas atrás de um sol e uma lua, ou de um sopro em teus seios, teus pés permaneciam sem dignidade alguma enroscados aos meus, como quem diz : tá cedo, vai não...
       Tão distantes da razão. Tão distantes da emoção. São só corpo. Mas a mente, mente. E mente antes de ser mente, é corpo. Voltemos a bebida antes que esfrie.
      A minha xícara, como já havia me habituado, sempre tão pouco cheia, tilintava no pires e vezemquando subia até a boca pra voltar do mesmo jeito. Sem beber nada. Nem cheirar. Nem soprar. Só ouvir, aquele tilintar de olhos fechados sentindo a xícara febril esquentar meus dedos. E quando esquentava trocava de mão. E escutava o tilintar. Escutava seu pulmão controlando a respiração. Escutava tuas pálpebras abrindo e fechando, teus cabelos, aqueles da franja e os de trás da nuca suspirando com o toque da minha pele ouriçando tudo por onde passava. E levava então xícara a boca pra te deixar entrar, e descer, confortar e despertar todo o resto.
       E pensava que, para minha desilusão, todo aquele amargo intrigante, que me lançava à realidade, já não estava mais lá. Em lugar algum. E eu te cuspi pra fora, pra longe, pro vento. Com toda aquela doçura remoendo em minha língua, toda aquela falta de você. Ela ainda persistia em te caçar em minha boca, ainda ansiava por você no meio daquele conto-de-fim-de-ano-qualquer.
      Foi quando notei que você continuara como sempre foi: Penetrante, quente. E nem poderia ser diferente. E continuava sim, me despertando. Todo esse açúcar era a minha boca, enjoativa. Causava náuseas. Mas você não, continuava amarga, encorpada, gostosa, e principalmente: Sem açúcar. Perfeita.
      Sua verdadeira essência, seu real gosto nunca esteve nos primeiros goles, na superficialidade. Seu verdadeiro sabor sempre esteve no fundo da xícara.
      E eu com a cara mais lavada do mundo te pedi:
      - Me serve mais uma xícara de você, por favor?



                                                             
                                                               "Tá cedo, vai não..."


Escada rolante

       Você também sabia. Aliás, soube desde quando eu lhe disse. Lembro que pude ver pela sua cara de espanto, pelo modo como seus olhos me engoliram, apesar do descansar sereno e quase indiferente de suas sobrancelhas, que não era exatamente o que esperava ouvir. Mas não obstante, sorriu. E como poderia esquecer?
        Era como se o seu rosto se dividisse entre dia e noite. Luz e trevas. O olhar mais piedoso e o sorriso mais encorajador do mundo. Foi algo parecido com a sensação de quem pisa em uma escada rolante desligada. Eu era a sua escada naquele momento. Você se desequilibrou pra frente, segurou-se no ar e, mesmo assim, mesmo sendo nítido que a saliva na sua boca havia se tornado árida e seu ar rarefeito, continuou em mim. Andando. Já não posso mais dizer se pra cima ou pra baixo.
         E hoje, estamos aqui. Enrolados em lençóis que não são nossos, quebrando promessas que nunca existiram e nos perdendo em sonhos que você sabe, nunca serão realidade. É o que eu imagino que esteja fazendo, enquanto eu te olho dormir: Sonhando. Á pouco tudo era mais fácil, menos consequente. Nos enrolávamos, nos afundando em nosso suor enquanto sua boca alimentava a minha, e meu cheiro te entorpecia. E era tudo mais fácil, ao que parece.
         Estou te olhando dormir sem roupa, enquanto me decido se, mais uma vez, simplesmente vou-me e, confirmo o que você sempre soube: Nunca serei seu. Na verdade de ninguém. Mas menos seu porque você, ao contrário de todos, me ama incondicionalmente. De um amor que me deixa de mãos atadas. Que não tenho como retribuir. Se eu cuspisse em sua cara, me olharia nos olhos e diria : ''Eu te amo!''.
         Ou se fico, e me conformo que talvez, para você, somente me deixar ser amado já seja o suficiente.


     

Quem sou eu?!

      Entra e sobe que a porta tá aberta. So que não vem de mansinho, não. Quero ouvir o seu salto batendo no chão, o seu olho piscando e sua boca me chamando. Pode entrar, trancar e jogar a chave fora. Porque daqui voce só sai quando o dia clarear e o passado for agora. Tira sua roupa, seus problemas, suas angústias e tudo mais que não serve pra nada. Joga eles alí, na lata do lixo. Você, pode se jogar em mim. Na minha cama, no meu sofá, na minha vida. Até transbordar.
       Sorri pra mim, mas só se você quiser. E eu sei que quer, sorriso verdadeiro a gente não só vê, sente. E assim eu te degusto, como uma taça de vinho em um fim de tarde de inverno, a meia luz. E então não é mais minha mão que enrola no seu cabelo, mas sim o caminho inverso. E ela faz dos meus lençois uma cortina de teatro, não aberta, mas sim fechada. Porque atrás das cortinas que as pessoas se revelam. É na cochia que as mascaras caem. É nessa hora que a sua maquiagem fica na sujeira do algodão. E as dores passadas também.
        E ela me pergunta então quem sou eu, E eu te respondo " Faz diferença?" Nomes são palavras. E palavras são dispensáveis quando os corpos se atraem, de um modo indomável, inevitável. Como os lados positivos e negativos de um imã. Como rios que desaguam em um oceano. Como... Eu e você?
"Me deixa sentir tua falta, me faz lembrar do teu cheiro e de quanto eu gosto dele. E depois vens. Sem demora e sem amarras. Sem receios e sem perguntas, só você. Você mesma. Se derrama em mim e me leva a crer que você nunca partiu, nem por um instante. Você havia se escondido dentro de mim... E quem é que consegue enxergar dentro de si mesmo?"

"Louco é quem se contenta
com o a alegria da chegada
e esquece do prazer da partida
Louco é quem se contenta em ver
somente até onde a vista alcança
É quem acredita que amores tem que ser eternos,
quando eles só tem que existir
É quem se aquieta com seu lugar
na fila da linha de produção,
com o pão da padaria
ou com o pastel da feira de domingo
Louco é quem se contenta comigo, com você
É quem se contenta com qualquer outra coisa
que não seja consigo mesmo
Louco é quem se contenta com pouco."



"(...)E lhe deixava a própria cabeça aberta, disposta a novas idéias, novos entendimentos. Que se ramificavam e entrelaçavam-se até se romper. E cada vez que uma nova surgia, deixava a antiga pra trás, e assim suscedia-se. E também perdia-se. Como a quem subia então degraus, num labirinto de escadas, que o deixavam cada vez mais no alto, e cada vez mais longe da realidade."
"Mulheres de atitude e com brilho próprio, que não vivem na sombra de homem nenhum... Cada vez mais difíceis de encontrar, mas cada vez mais fascinantes"
"Eu aprendi que a felicidade plena, eterna, realmente não existe. Aprendi que estamos errados quando achamos que sabemos do que precisamos e mais ainda quando achamos que precisamos do que queremos. Aprendi que um dia tem 24 horas, mas só preciso de um segundo, um momento, pra sorrir nele o dia inteiro. Que posso viajar durante 30 dias, e dois ou três momentos inesquecíveis serão suficientes pra tornar a minha viagem inteira inesquecível. Aprendi que se conhecer 2 ou 3 pessoas realmente importantes, realmente únicas e especiais a minha vida toda terá válido a pena. Eu aprendi que a felicidade plena, eterna, realmente não existe. O que existe são momentos felizes que no fim, acabam compensando todo o resto."
      "Talvez o seu maior sonho fosse poder abrir os braços e voar. Sair correndo, abrir os braços e simplismente voar. Sem direção, sem objetivos planejados, sem destino. Somente se deixar ir pra onde o vento levar... Mas já parou pra pensar como o ser humano é? 
      Muitos têm pássaros de "estimação" e sentem-se no direito de o deixar trancado em uma gaiola, pulando de um lado a outro... só isso, pulando. E lhe tirando o direito de fazer aquilo que nasceu pra fazer: Voar! Unicamente para poder ouvir seu bonito canto... É o nosso velho hábito de extrair das pessoas e das coisas, o que nos convém, extrair o melhor dos outros, o mais bonito, o que nos é útil, o que nos faz bem, SEMPRE em benefício próprio. Não pense que vida é só isso, o mundo é seu . E todo amor que tem nele também. A escolha é sua: Essa gaiola ou a Vida! 
      Talvez você deva fazer igual as aves que são livres fazem. No inverno elas migram em busca do verão, do calor e do tempo bom. Alguns podem entender como covardia. Outros como sobrevivência. Ou talvez seja só uma busca pela felicidade. Seguida pelo encontro dela. Você deveria experimentar."
      "Só tenho preconceito com uma coisa na vida: Com o dinheiro. Não sei porque. Mas ás vezes parece que onde ele chega tira a graça das coisas. Tira a pureza, a sinceridade, a verdade. Parece querer toda a atenção só pra ele, quer ser desejado por todos, amado por todos, querido por todos e quase sempre consegue. Consegue fazer com que muita gente esqueça que já houve épocas em que ele não existiu. Mas por mais difícil que seja acreditar, mesmo sem dinheiro havia exatamente do mesmo jeito a felicidade, as amizades verdadeiras, companheirismo, risadas, amor, bons momentos... Sim, por mais impossível que seja de acreditar isso tudo sempre existiu sem a perseguição ao maldito dinheiro, poder, dinheiro... sei lá dessa merda toda. 
       Só queria te dizer uma coisa, a mim você não engana. A felicidade, a minha pelo menos, se resume em risadas, verdades e momentos. Momentos... os que vem, os que vão e os que ficam."
"Eu nunca tive muita fascinação pela serenidade de vidas paralelas. Eu prefiro vidas que de algum modo, desordeiro ou insensato, terno ou avassalador, cruzam-se com a minha."
      "Algum dia, em algum bar de alguma cidade, um velho bêbado entrou para tomar uma bela dosinha matinal de caipora. Seus hábitos não eram os melhores, bem como suas roupas e sua higiene. Tinha movimentos mansos e um sorriso leve e habitual no rosto, daquela felicidade não-comprada e nada espalhafatosa. Felicidade serena, muito pouco vista. A sua simples caminhada da entrada em direção ao balcão fez-se digna de um espetáculo para o theatro mvnicipal, com ingressos esgotados. As suas pernas dançavam e faziam movimentos desastrosamente coordenados. Se fossem pincéis teriam desenhado no chão ondas semelhantes as da praia de copacabana. Talvez tenha surgido daí a inspiração para o desenho de sua calçada tão famosa, o caminhar de um jovem boêmio. Deslizou, tropicou e caiu sentado. Numa cadeira vazia por sorte. Ajeitou-se. Ao seu lado nas cadeiras do balcão, estava sentado um homem jovem e bem vestido, de palito fino e alinhado, porém a gravata já havia se tornado lenço para o nariz e os primeiros botões estavam desabotoados. Em cima da bancada algumas cervejas, talvez uma meia-dúzia. Todas abertas mas nenhuma completamente vazia. Talvez a vontade de se ver bêbado fosse realmente maior do que a de tomar aquelas cervejas. A sua aparência levava a crer que algo não estava bem. 
      "E aí meu rapaz, você não devia beber tanto sabia?" O velho bêbado levantando uma bandeira contra o alcoolismo. Ironicamente é claro. Talvez ele estivesse mais preocupado com que ele acabasse com todas as cervejas do mundo. "Sai pra lá seu velho cachaceiro, eu não vou lhe pagar bebida alguma!" "Ei, ei, calma lá. Você acha que é isso que eu quero? Garçom, faz favor. Marque essa cachaça que lhe pedi e todas as cervejas desse rapaz em minha conta. E o que mais ele puder beber!" Falou levantando parcialmente o traseiro da cadeira, porém ainda segurando no encosto com um dos braços e olhando para o infinito, com ares de quem proclamava a independência dos bêbados sem dinheiro mas com dignidade. Com certeza não foi convincente para o garçom, que tinha plena noção de sua pé-rapadisse. Mas foi o suficiente para fazer o rapaz se arrepender do que havia dito. "Não, que isso, Me desculpa. Ignore. É que estou com alguns problemas. Posso te pagar uma bebida?" "O que é isso digo eu. Eu jamais aceitaria." Uma pequena pausa. "Porém percebo que é um homem de classe, e que ficaria extremamente sentido se não aceitasse. Não quero que pense que me falta educação. Então, que seja!" Perder uma oportunidade? Jamais. Enquanto o garçom o servia tratou de ir puxando assunto. 
      "Mas diga-me rapaz, porque toda essa foça?" Perguntou, enquanto cheirava e degustava sua pinga como se fosse o mais puro vinho italiano. "E porque mais seria? Estou sofrendo por amor." E olhou para o nosso bêbado ancião, como que esperando o sinal verde para começar a desabafar. Que não veio. Ele preferiu virar sua cachaça de uma vez só. Antes que fosse tarde demais. O rapaz então decidiu insistir no assunto. Talvez encontrara alguém para sofrer junto sua dor. "E você senhor, porque bebe tanto? Também sofre por amor?" O nosso velho então respirou tranquilamente e mergulhou em uma serenidade que fez o rapaz pensar que ele havia tomado uma dose de glicose, e não de cachaça. "Meu rapaz bebo pra esquecer dos problemas da vida, talvez. Mas nunca do amor. Dele quero me lembrar a cada instante." O rapaz retrucou. "Pra o senhor deve ser fácil. Mas eu não consigo viver sem ela!" Falou o rapaz imaginando ter encontrado os ouvidos que precisava "Você não consegue viver sem ela, mas ela pelo jeito consegue viver sem você. Você quer nada além do que lhe é conveniente, lhe faz bem. Assim como um carro luxuoso te trás conforto ou um cobertor quente lhe esquenta os pés. Você deveria ser preso por chamar isso de amor. O amor nao é o que pensa. O amor é auto suficiente e alimenta-se por si só. Basta que exista. E é muito diferente dessa sua carência que vaga por aí como um cachorro faminto atrás de uma presa pra descarregar essa sua necessidade de depositar suas frustrações em outra pessoa. Por favor, cresça e vire homem seu pivete" O rapaz então ficou cego de raiva. Tomar lição de moral de um desconhecido, até aceitaria. Mas de um desconhecido, velho, bêbado e mal-cheiroso era mais do que ele podia aguentar. "O senhor deve estar louco pra falar assim comigo!" Esbravejou levantando-se da cadeira imponentemente. "Talvez eu seja mesmo. E quando você perceber que o mundo que vivemos é um completo manicômio, talvez também se torne um!" E também levantou. Na segunda tentativa, mas levantou-se, e bateu fortemente com uma moeda que tirara do bolso da camisa, sua filha única, no balcão. Por um momento ficou com receio de tomar uma bordoada, mas manteve seu peito de tombo estufado por alguns segundos e virou-se em direção a saída. O rapaz ficou frustrado por não ter achado palavras e sentou-se novamente. Seguido por um suspiro aliviado do nosso velho. Sua retirada fez-se com pressa afinal em nome do seu orgulho sua última moeda havia sido gasta, e alí se dava início a uma nova saga, uma nova epopéia: A conquista de mais uma moeda! Afinal, logo seria a hora da caipora do almoço. 
      O velho bêbado todo orgulhoso pela vitória no combate moral saiu, e rumou em direção ao horizonte com seu trançar de pernas característico, movimentos mansos e sorriso leve e habitual e desapareceu. O jovem rapaz continuou ali, pediu mais uma cerveja e praguejou com o garçom. "É um velho louco, Demente" Talvez ele bem lá no fundo não tivesse achado isso. Mas ele tinha seu orgulho próprio e jamais admitiria isso.