sábado, 3 de janeiro de 2015

Roleta russa


Depois daquela noite
Tudo que eu parecia ouvir era um ensurdecedor
gatilho batendo em seco:
Tec... Tec...
Como uma mal sucedida roleta russa,
No pé do ouvido,
Porém se quer passa por ele
Ressoa direto n'alma
Roleta talvez, porém russa
Jamais

As russas sabem o que querem
Sabem bem lidar com o seu lado maligno,
Perverso.
Seria russa se o tambor estivesse cheio,
Sem possibilidades de erro
Pra ser russa tem que haver pólvora
Tem que haver explosão,
Sempre.

Como quando sentia o teu corpo
Fibrilando e respirando junto ao meu
Tua boca mordendo a minha, fazendo-a sangrar
Não buscando a dor
Mas algo que há depois dela

O teu pescoço delicado, exposto
Queimado de cigarro
Era como uma licença
Teus pulsos finos procurando
A firmeza da minha mão, 
Buscando em mim o que no mundo
Está guardado, o que nos outros
Está escondido, marginalizado
E isso tudo era como uma licença

Uma indulgente licença pra ser ruim

Todo o meu desejo guardado
Aquela pulsão animal
Capaz de penetrar, avançar, dilacerar
Agora é sua também

A gente não consegue perder esse costume
De buscar a nós mesmos no outro
Teu olhar agora me fulmina
E busca em mim exatamente o que sabe
Que também há dentro de você

Você, com seus cabelos vermelhos,
Como uma autêntica russa,
Me olha e me desperta.
Me arranha, me morde, me chupa
Me liberta.

Cola de novo teu corpo no meu,
Gira a roleta mais uma vez
E puxe o gatilho...
Não erre.