segunda-feira, 31 de março de 2014

Vida rascunhada

        Fico me perguntando
        Sobre a história por trás de cada poesia.
        Elas são sempre mais interessantes
        Do que o resultado,
        Mas quem a escreve
        Sempre guarda pra si, afinal,
        Quem quer saber de rascunhos?
       
         E a história por trás de cada vida?

         Aos poucos vamos nos tornando,
         Ou nos conformando,
         Com o fato de que somos apenas
         Uma arte final perambulando por aí.
       
         Uma obra-prima de nós mesmos.

         Pronta pra ser interpretada
         Através de cada olhar,
         Nos espremendo pra passar
         Por cada filtro.

         No fim das contas não somos mais um só,
         Somos mil.

         Quando me perguntou:
         E aquele poema foi pra mim?
         Eu só pude dizer: Talvez.
         Um poema ou um verso tem mil faces
         Quando não explicado.
         Se torna imortal.

         Ou melhor,
         Está acima da vida e da morte.
         Nasce e renasce com cada olhar que o toca,
         Com cada ouvido que o sente
         E com cada boca que o vê.

         Tudo trocado,
         Mas nós somos assim mesmo,
         Tudo enrolado.

         Para todos que me vêem
         Sou apenas un gran finale.
         Mas algum dia,
         Nós ainda nos sentaremos no chão,
         No canto de uma sala qualquer
         Apenas com as nossas lixeiras,
         Aquelas onde jogamos
         Todos os nossos rascunhos.

         E então seremos nós dois,
         Desamassando todo aquele papel,
         Repleto de sofrimento,
         De desejos,
         Devaneios sem sentido,
         E alegrias sem motivo.
         Sem dúvida,
         Em algum desses papéis
         Há de haver algum amor.

         Daqueles que só é capaz de encontrar
         Quem teve a coragem
         De revirar o lixo,
         De trazer à tona
         Os rascunhos
         Que nunca estão sobre os holofotes.

         Os rascunhos
         De uma vida inteira,
         Que realmente importam
       
         Afinal,
         A vida é muito mais rascunho
         Do que arte final.



   

terça-feira, 11 de março de 2014

Não é só passo

Tens um olhar lindo enquanto dança, 
Não pude deixar de notar 
Teus olhos funcionavam como meu eixo
Por mais que tudo girasse, 
se desencontrasse e se perdesse,
meus olhos não queriam perder os teus. 
Não podiam. 
Não deviam.

Sempre atenta, concentrada em mim. 
Totalmente tomada, 
Não para com os meus hábitos à mesa
Na hora do almoço, 
pro carro que dirijo 
Ou pro modo como me visto. 
Somente pro meu corpo
Pra onde a conduzo, 
Pro modo como te desejo

Era como se o mundo 
virasse do avesso, 
e o palco não fosse mais perante a plateia, 
mas sim, atrás das cortinas. 
Num lugar só nosso 
onde não há uma só crítica, 
atenta aos nossos deslizes e gracejos, 
um lugar onde exista apenas dois corpos, 
suados, envoltos, encaixados
Pulsando, juntos
          Sem nenhum repulsa
          Sem qualquer pudor
          
A música termina, 
e como um sol se pondo, 
as cortinas se erguem 
e nos devolvem à realidade. 
Beijo seu rosto, 
me despeço 
e sigo para o outro canto do salão. 
Paro por um segundo 
para tentar lembrar seu nome, 
e tentar me lembrar do aroma 
tão adocicado do seu pescoço

Dança, não é só passo.
Talvez seja um universo 
que nos devolva tudo aquilo que,
pela vida, nos foi tirado
É caso de amor com o seu outro lado
          É aquele braço tão disposto,
          firme,
          Em que você tantas vezes 
          quis se deixar levar

          É a possibilidade
          de se apaixonar 
          cada vez que a música começa

          E, se ela dura tão pouco,
          É preciso que seja intenso
          É preciso que seja pra sempre,
          Até que a música acabe

Mas não há tempo para considerações 
nem devaneios 
A música vai começar de novo

E eu, 
preciso me apaixonar novamente.