terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Desconheça-me,

Eu te peço
Porque eu em breve
Muito antes do que imagina
Também a desconhecerei

Talvez agora mesmo
Enquanto te beijo
Agora de novo
Enquanto te escrevo

Esquecerei de tuas delícias,
teus desastres
E quando nos encontrarmos novamente
Será apenas uma qualquer

Qualquer uma, quaisquer todas
Será quem eu quiser,
Posso te reinventar.
Posso?

Talvez deva.
Esquecer de tudo,
Lembrar-me somente
De abrir os olhos

Quem vai estar diante deles?
Impossível prever, como o vento
Irresistível momento

Gosto de apenas esquecer
Pra poder sentir
Não lembrar
Pra poder, então,
Amar

Por isso te peço,
Encarecidamente,
Atreva-se
A não saber

Desconheça-me
Porque eu não me conheço
Se quer tento

Desconheço-me
Porque te amando
Também me invento


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Gravidade

Dignidade para comer,
Morar, vestir-se
Dignidade ao sonhar,
Ao sorrir, ao despir-se
Sejamos dignos!
Disseram...

Mas quando a gente se enrosca a alguém,
Literalmente falando,
Quando entre as coxas não passa um fio
E há entre os lábios um rio
A gente nota que não nasceu pra amar alguém
De forma assim tão digna

Na verdade, queremos passividade
Pathos, do grego
Queremos dar o sinal, subir e dormir
Com a cabeça confortavelmente recosta ao vidro
Babando, amando.

Sem lutas,
Sem desafios,
Sem evolução.

Querer negar a mim mesmo, você
É tão possível quanto,
De corpo nu,
Vencer a gravidade

Quanto mais longe eu te lançasse
Com mais força você retornaria
Destruindo tudo em mim
Me mostrando quão fraco meu abraço,
Essa mistura embaralhada de braço, calor e amasso
Ainda pode ser

Porque o meu peito está gravitado ao seu
E o fundo obscuro dos nossos olhos
Ainda está em chamas
Queimando de raivosa doçura
Lutar contra essa gravidade nos fortalece
Querer vencê-la
Nos enlouqueceria

Sejamos realistas,
Não podemos vencê-la,
Não podemos conter um incêndio.
Lutemos,
Mas por favor,
Não sejamos loucos




quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Penteadeira


São 08h15 e eu ainda não consigo entender como quatro colheres de açúcar ainda não adoçaram o meu café. Um leve sentimento que ainda não consigo identificar me sufoca, como um lenço amarrado à garganta, e é horrível olhar para os lados sem ter alguém para retirá-lo. Ou dividi-lo. Se estivesse aqui me diria que isso é apenas barriga vazia, e faria algo para comermos. Assim eu poderia dizer que estava errado, que estava apenas implicando comigo. Depois riríamos juntos. Nesse momento eu já nem me importaria com meu chefe mal humorado, com o ônibus lotado, com a semana de provas da faculdade. É estranho colocar em alguém essa responsabilidade sobre mim, mas era como se eu me sentisse tão segura que pudesse abrir as trancas. Sabe, deixar fugir tudo de bom e de ruim. Ficar leve. Você sempre teve o dom de desatar os lenços do meu pescoço pela manhã.
Faço uma omelete, deixando cair uns pequenos caquinhos de casca de ovo e intragavelmente sem sal. Nem sei por que a faço assim, eu odiava sua omelete. Não a como. Me sento em frente a penteadeira pra me maquiar antes de sair. Enquanto passo o batom, me olho. Como você olharia. Não há nada nesse mundo que eu goste mais do que sentir seus olhos ainda nos meus depois que desvio o olhar. Às vezes me olho no espelho da bolsa e, pelo reflexo, sinto seu olhar buscando o meu. Quando nos beijávamos e nos despedíamos, podia o sentir mesmo a kilometros de distância, ainda me admirando, como se o seu olhar pudesse dobrar esquinas por toda a cidade.
Começo a “fazer” os cílios, decido deixá-los longos e desenhados. Sempre me perguntam se são postiços. Sabe, noite passada eu tive um sonho, não me lembro exatamente de tudo, mais algumas coisas ainda estão vivas em minha memória. Sonhei que estava dentro de um ônibus, mas assim que havia entrado me dava conta de que havia pego o ônibus errado. Então me desesperava a tocar o sinal, mas o ônibus não parava. Eu gritava e dizia: “Vou descer, para!”. Mas quanto mais eu gritasse, mais o ônibus parecia acelerar. Então eu já cansada de berrar e espernear, caí sem energias na minha cadeira. Quando percebi a minha frente havia um volante, um câmbio, pedais... Apenas pisei no freio cautelosamente, o ônibus foi parando, parando... E eu desci. Me lembro de ter esquecido aonde de fato eu queria ir. Acordei.
Quando começo a passar a base, meu celular toca. É você. Meu peito aperta. Por algum motivo me vem à tona de um modo muito forte, quase como uma pancada, a lembrança de quando você se levantava toda noite antes de dormirmos para trancar a porta. Eu jamais imaginei que sentiria tanta falta disso. Minha respiração acelera, e meus olhos ameaçam sujar o rímel, mas decido não atender. Ainda não é o momento, ainda não consigo. Enquanto conserto o pequeno estrago feito pelo simples som de um trinco sendo fechado em uma noite de terça feira, me questiono que talvez eu devesse parar de lutar comigo mesma, parar de aumentar os meus caminhos, de impedir simplesmente de que o destino me leve.
O celular clareia e me mostra uma mensagem sua: “Hoje à noite passo na sua casa, precisamos conversar.” Em poucos instantes chego à conclusão de que deixarei a porta trancada, mas que posso deixar a chave em cima do muro, naquele cantinho que você sempre soube. E assim, de uma forma menos culpada, te deixar entrar. Deixar seus olhos novamente me tocarem, sua boca, seus dentes, suas costas. Mas quando imagino essa aproximação me sinto tão dentro de você, que posso me ver através dos seus olhos. E me vejo escapando novamente. Me vejo partindo. Pego o celular e respondo a mensagem: “ Não vem, não quero!”
Me olho mais uma vez no espelho e vejo duas. Aquela que é sua, e ainda demora a querer ser de outro. E também aquela que está partindo de vez. Talvez no fundo eu ainda queira somente que você insista. Que segure o meu braço e impeça esse meu outro eu que quer partir. Talvez eu só queira saber quantas esquinas o seu olhar ainda vai dobrar só pra não perder o meu de vista.

Termino a maquiagem e me sinto linda. Me sinto forte, me sinto minha. Estou em cima da hora. Pego minha bolsa e vou pra rua com um sorriso no rosto. Mas antes de sair me certifico de ter deixado minhas dúvidas, meus receios e os barulhos de trinco das terças feiras à noite bem guardados. Dentro da gaveta da penteadeira


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Utopia

     Gosto da sensação de expectativa
     Que sentir os olhos fechados
     Em nossa montanha russa me causa.
     Esse pequeno lapso temporal
     Onde não se sabe se vai continuar subindo
     Ou começar a despencar
     Sentir a tua suada mão buscar abrigo
     Agarrando-se a minha
     É como éter no ar

     Eu despencaria cortante
     Por dentro de você

     Carrego em minha boca uma utopia amarga
     Que já foi chamada sonho
     E eu a cuspiria pra dentro da tua
     Misturar o amargo ao azedo
     Depois lamber os beiços
     Pra numa frenética dança de línguas
     Que não sabem da onde vem nem pra onde vão
     Livrar-se do peso da perfeição

     Se não se pode ter um dia de descanso
     (Ou uma vida inteira)
     Sentado à beira-mar
     Catalogando prazeres
     Degustando emoções
     Por quê, pra que tantas perfei(o)ções?

     Na gostosa banalidade da vida,
     Varrida pra baixo do tapete,
     Todo amor é barato
     E pode ser encontrado ali na esquina
     Todo amor é ordinário, espontâneo, safado
     Todo amor é indigno
     do romantismo que lhe cabe

     Ainda bem.





sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Tangenciar

Não há nada mais complexo
na vida do que
O toque.
Desde a ideia de fazê-lo,
quando o querer
já é mais que qualquer ação,
ao que deixa marcas, invade e faz sangrar.
Dar é, ao mesmo tempo, receber
e vice-versa.

E como explicar sermos só corpo
quando um tangenciar de peles
é mais intenso do que uma facada
que penetra a carne?
Há de haver algo entre dois corpos
que não estava ali antes do toque,
ou da ideia dele.
O toque nos expande

Sobretudo,
é preciso que lhe confesse
Algumas vezes,
e só em algumas delas,
o que pareceu paixão
era apenas inquietude
Um homem de mãos carinhosamente inquietas,
muitas vezes,
se passa por um homem apaixonado.
Eu sei.

E talvez, não valha menos do que um,
afinal, o que se passa na mente
no momento do toque?
Talvez não passe nada,
e assim não tenha tanta diferença
entre um e outro.
A diferença estaria entre quem fantasia,
imagina, deseja, anseia e acolhe o nosso toque
e em quem está distante e alheio
demais para isso

Quando, por acaso,
lhe ocorrer lembrar de mim
não lembre dos gostos musicais,
das piadas repetitivas, do
insuportável bom humor matinal.
Não lembre-se das promessas não cumpridas,
dos encontros casuais ou dos engasgados
pedidos de desculpas,
Eu não sou nada disso

Eu sou o modo como te toco.
Porque quando o faço,
não tenho como ser mais algum.
Esqueça de tudo,
Lembre-se do abraço.



terça-feira, 19 de agosto de 2014

A maravilhosa loja (Canelinha e Bola de Boliche)

     






     - Vamos, Molenga! Vem logo! 
     Gritava um menino de aparentemente dez anos de idade, com sua bermuda curta e suas canelas finas de fora, ainda lisas, sem quaisquer indícios de pelos. O cabelo era castanho, nem claro nem escuro, mal penteado. Ou talvez, penteado como deveria. Cabelos servem para ser bonitos ou confortáveis? Gritava para seu amigo : 
     - Vem seu mole anda!
     Eram melhores amigos. Ou seriam. Ainda alí não sabiam disso. Seu amigo era pouca coisa mais velho, não chegava a um ano de diferença. Mais velho e mais rechonchudo também. Suas bochechas eram lustrosas. Se ao invés de dois furos, o seu nariz tivesse três, seria seu rosto uma perfeita bola de boliche. Mas não foi a falta de um furo que o impediu de ter esse apelido. 
     - Corre bola de boliche, vamos nos atrasar! 
     Essa pressa toda era pra ir ao cinema. A Estréia de " Aventuras galácticas 2 - A Jornada sem volta". A continuação do filme que deixava as crianças da época alucinadas. E a presença garantida do ator principal na bilheteria fez os mais jovens enlouquecerem. 
     - O canelinha, para de gritar a gente já chegou. 
     Chegaram. No fim da fila. Enorme. Duas voltas no quarteirão. 
     - Vixe, será que agente vai conseguir entrar? 
     - Não sei, se você tivesse andado logo talvez! Bolinha! 
     Começou a frase indignado, porém terminou com um sorriso no rosto, dando leves tapinhas na barriga rechonchuda do Bola de boliche.
     - Ah ah ah. Será que essa também é a fila da pipoca? 
     Disse bolinha, propositalmente, irritando o amigo. O jeito era esperar, não havia o que ser feito. Ao lado deles havia uma loja grande, recém inaugurada. Causou um certa estranheza em nossos meninos por até então, não ter sido notada. A faixada repleta de LEDS azuis, com cartazes chamativos, produtos a mostra, e uma promessa quase que irresistível para crianças de dez anos: "Compre o que quiser sem precisar de dinheiro!". Será possível? Decidiram entrar, por que não? O filme já estava perdido mesmo. 
     A loja, apesar de enorme, estava relativamente cheia, diversos vendedores ocupados com um, dois, até com seis clientes ao mesmo tempo. Nas prateleiras e nos corredores diversos produtos. Televisões Full HD, video-games, bicicletas, eletrodomésticos, até mesmo carros, motos.Todos de última geração, das melhores marcas, as mais desejadas.Os meninos passeavam pela loja embasbacados, com o olhar perdido.Sonhador. 
     - Ter tudo isso sem precisar gastar nossa mesada? 
     Disse canelinha com os olhos brilhando. Estranhamente um vendedor abandonou alguns de seus clientes, já homens mais velhos, que o indagavam fervorosamente, e dirigiu-se a pequena dupla de crianças. 
     - Boa tarde, pequenos. Precisam de ajuda? 
     O vendedor magro, alto, de bigode. De pele firme,aparentava seu rosto ser uma máscara. Barba perfeita, não se via um vestígio de acne, pelos, ou o que quer que seja. 
     - Olha, senhor, estamos dando uma olhada só... 
     Disse o mais rechonchudo. Mais tímido, mais recatado. 
     - Olhando não, senhor. Queremos levar, não precisa de dinheiro, né?
     Disse o da perna fina, mais atirado, depois de passar a frente do seu amigo. Nesse momento os homens a quem o vendedor atendia, indignados, por terem sido postos de lado pelo vendedor para dar atenção a meninos, saíram da loja pronunciando injúrias. O vendedor os ignorou completamente. Eles já não tinham mais o que realmente interessava ao vendedor. 
     - Sim, exatamente. Não precisa gastar um centavo, é nosso modelo revolucionário. Já escolheram o que querem levar? Vamos escolham!
     Apesar de certo temor que era nítido no rosto do bolinha de boliche, o sorriso extasiado no rosto de seu amigo era tão forte quanto um holofote. 
     - Acho melhor não... Canelinha vamos embora, vamos perder o filme! 
     Disse o gordinho, puxando o amigo pelo braço. Não sabia o que o incomodava. Não sabia o que o metia medo. Mas o sentia. 
     - Filme? Para de ser bobo gordinho, eu só saio daqui com o meu video-game novo!
     Disse isso desdenhando da opinião do seu amigo, fazendo um gesto com as mãos de cima pra baixo, como quem dá tapas em pernilongos. E saiu seguindo o vendedor, ainda ludibriado pelas tantas cores que brilhavam na loja. Bolinha não o seguiu. Sentiu vontade, mas não o fez. Não queria deixar o amigo sozinho, e naquele momento mal se importava com o filme, ou com a pipoca. Mas o rosto daquele homem o fez sentir medo. E não se recriminou por isso, era uma criança. Viu seu amigo caminhar com o vendedor para o fundo da loja, o setor dos video-games e, percebendo que ele não voltaria, foi embora. De cabeça baixa. 
     Canelinha dirigindo-se ao fundo da loja com o vendedor, percebeu que a loja era maior do que parecia, talvez o dobro, o triplo. E pessoas não paravam de entrar. 
     - Está aí menino, o setor de video-games, escolha o seu predileto!
     Pow! Foi o tiro de largada, saiu em disparada. Escolhia um, e depois trocava. E quando já decidido, voltava a querer o primeiro. Quando por fim escolheu, Master Game 3000, com a saga completa do jogo " Aventuras Galácticas" e controle de pistola. Quanto orgulho de si próprio sentia. Era só um video-game, mas sentia que ali começava a ser independente, sentia-se adulto. 
     - Acho que já posso começar a conseguir minhas coisas sozinho. Pensava. 
     Caminhou até o vendedor de peito estufado e o informou: 
     -É esse! Entregando-lhe a caixa. 
     - Pois bem, que seja esse. Enquanto mando embrulhar, vou lhe falar sobre a forma de pagamento.
     O menino estalou os olhos. 
     - Tem que pagar? 
     - Calma, com dinheiro não. Esse video-game vai lhe custar apenas 200 horas de vida. 
     O menino não entendeu nada. E nem precisou dizer, sua cara falava por si só. 
     - Calma menino, vou lhe explicar. Sabe aqueles momentos em que não se está fazendo nada? Quando se chega em casa, se está de bobeira? 
     O menino assentiu com a cabeça. 
     - Então é disso que precisamos, você não irá nem sentir falta. Já imaginou como ele lhe sairia caro na loja?
     O menino era só dúvidas, mas assentiu com a cabeça de novo. 
     - Olha aqui, chegou o seu video-game embrulhadinho. É seu, só preciso que assine aqui.
     - Tá bom...
     Segurou o papel, pensou. 
     - Posso escrever só o nome?
     Perguntou receoso. 
     - Pode sim, garoto. 
     E olhava atentamente esperando que o menino o fizesse. E ele o fez. O vendedor então o acompanhou até a saída e se despediu. 
     - Volte Sempre!
     - Obrigado senhor, mas não sei, acho que não devo voltar. 
     As duas mãos seguravam o pacote embrulhado. Por baixo. 
     - Vai sim meu querido, cuide-se. 
     E voltou para dentro da loja. Canelinha saiu com seu video-game novo. Apesar da afobação e entusiasmo inicial, ele não sabia mais exatamente o que lhes ocorreu, mas não mais os sentia. E foi embora, pra casa. E quer saber? Canelinha voltou ali muitas outras vezes. Sobre as primeiras duzentas horas que devia a loja pelo seu video-game, as pagou rigorosamente. Não tinha que ir até aloja, ou depositar em algum banco nacional de relógios, ou cronômetros. Ele não percebia exatamente quando, nem como, mas sentia que as estava pagando. Primeiro quando perdeu sua amizade com bolinha de boliche. Na infância, eles foram parando de se ver, de se encontrar, de brincar na rua, jogar bolinha de gude, empinar pipa, amarelinha, pega-pega, polícia e ladrão. Isso tudo, só não aconteceu. Afinal suas horas, ou grande parte delas, já não o pertenciam. Havia uma dívida, e elas somente sumiam, sem que ele notasse quando, ou como. 
     Mais tarde, alguns anos após, Canelinha "comprou" uma lambreta. Três mil horas. Roupas, televisores, computadores, mais video-games. Devido isso, não passou dias dando risada com bolão (seria o apelido que daria a bolinha de boliche, caso continuassem amigos, afinal, o menino crescera muito), não jogaram bola juntos até as pernas não aguentarem mais, não fizeram guerras de bexigas d'água, não viraram a noite toda conversando sobre a primeira paixão da escola, não pularam o muro do vizinho pra pegar a bola. Não se viram sentados na rua, sem absolutamente nada pra fazer, sem nem um centavo no bolso, mas de algum jeito, confortavelmente felizes por terem um ao outro, por serem melhores amigos.Tudo isso não existiu. Afinal, uma dívida tinha que ser paga, vocês já sabem.
     Recentemente, Paulo Lins de Souza, o Canelinha, agora já com seus trinta anos, voltou a loja misteriosa e retirou seu veículo. Seu sonho de consumo. Última geração, motor esportivo, bancos de couro, artigos de luxo e amarelo, com uma faixa no meio. Preço? 1.000.000 de horas.... Por incrível que pareça, o mesmo vendedor ainda trabalhava lá. Sua pele ainda perfeitamente lisa. O vendedor sabia desde aquele dia, há tanto tempo atrás, que seria um cliente em potencial. Paulo Lins Retirou seu veículo e saiu. Passando em frente ao cinema próximo a loja, ainda em atividade, recordou-se daquele dia: " Aventuras Galácticas". Súbito, lembrou-se que há anos também não ia ao cinema... Percebeu que, talvez, não iria nunca mais. 
     - Quer dizer, quem sabe depois de pagar as horas que devo devido o carro...Quem sabe.




     

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

olhar

Enquanto os homens, de forma desinteressada e quase que mecânica, questionam-se sobre o que querem as mulheres, seguido pela covarde constatação de essa ser uma pergunta sem resposta, ao lado de outros já conhecidos questionamentos de semelhante fim (qual o sentido da vida?), elas, por sua vez, parecem já saber exatamente o que os homens querem, e se encontram entediadas pela falta de mistério e de olhares. Não mistério de conto infantil, mas o de um simples e confiante "não saber" que permeia a imaginação, porque é lá onde o universo feminino acontece. Um "não saber" que arrasta pela mão e as coloque na garupa sem dizer pra onde vai. Não de um olhar limitado, previsível, aprisionante, mas de um olhar quase neutro, de caçador. Que não capture imagens estáticas e preguiçosas (elas são assim, elas são assado), que chega sem pedir licença. Que reinventa a cada novo foco. Olhar fixo e vazio, onde é possível sentir-se dentro. Onde seja possível, até mesmo, viver.



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

ruína

Hoje,
não quero sentir a superficialidade
da tua pele, nem o perfume
que nela carrega.

Não quero a tinta que a maquia,
nem a roupa que a esconde.
Hoje,
quero tua carne, na minha.

Poder tragar o fedor
do teu canto mais obscuro,
bater em tua face mais sórdida
e me tatuar com as marcas
das tuas garras felinas.

Adentrar,
feito cazuza,
pelas portas escancaradas
de tuas feridas.

Quero tua saliva,
teu cuspe misturado ao meu,
teu suor salgando a minha língua
quero essa porra toda,
hoje.

Quero tuas lágrimas em minha roupa,
tuas sobras em minha boca
e te quero sem voz,
te quero rouca.

Quero teus problemas banais,
casuais
e existenciais.

Lamber teu amargo,
brindar tuas dores,
em teu olhar poder sentir maldade,
e desarmá-la.

Do teu movimento desordenado
fazer inércia,
e desaguá-la.

Hoje, quero todo
o seu lixo,
toda sua podridão.

Quero
toda a sua ruína,
em mim.



domingo, 20 de julho de 2014

Baby, do you wanna dance?

     E eu que pensava que agora estava livre das filas, mas me enganei. Uma fila pra pedir informação, outra pra pegar a senha, outra pra ser atendido. Nem a minha bengala me dá prioridade mais. Ó morte cruel. Eis que chega um moço até jovem, segurando um daqueles pequenos capacetes que se usa para andar de mobilete:
     - Boa tarde senhor, essa daqui é a fila pra negociação de breve prorrogação de vida?
     - Depende, o seu motivo pra voltar... qual é?
     - Bom eu tenho um projeto onde abrigo crianças abandonadas, são cerca de 300 crianças. Nós os acolhemos das ruas, lhes damos abrigo, alimentação, estudo, enfim, lhes damos a vida que eles não tiveram a oportunidade de ter. Porém um pouco antes de morrer eu recebi um cheque de um senhor inglês caridoso que pouco antes de voltar para seu país se interessou muito pelo meu projeto, e fez uma doação muito generosa. Mas só poderia ir ao banco no dia seguinte, então guardei o cheque dentro de um compartimento secreto embaixo da última gaveta da minha cômoda. À noite quando fui ao mercado comprar pão com a minha mobilete... bom o senhor já deve imaginar o que aconteceu. Se não voltar para pelo menos depositá-lo, essas crianças vão ficar desamparadas porque a casa está para ir à falência.
     Uma chance a menos. pensei. Que azar o meu, devo ter morrido justamente no dia que caiu algum meteoro eu um encontro na casa dos Hope. Confesso, baixinho aqui entre nós, que pensei em dizer que não era essa a fila. Mas trezentas crianças...
     - É essa daqui a fila sim.
     - Obrigado. Mas e o senhor, porque precisa voltar?
     - Eu? É que deixei Galileu sem ração suficiente.
     - Galileu?
     - Sim, meu gato.
     Eu jamais diria a ele sobre Catarina. Não por medo de parecer bobo não, pelo contrário, se mostro a ele a foto e conto como ela tinha um sorriso de iluminar quarteirão e que precisava voltar para dizer, pela última vez, que a amava, ele fazia abaixo assinado ali mesmo. Mas aí ele ia ver a foto e acabar se apaixonando por Catarina, tenho certeza. Aí usaria esse papinho de bom moço das 300 crianças e voltaria para vê-la! Sou velho mas não sou bobo.
     - Senhor Adonias, senha 451.
     Porque será que a minha cabeça tá coçando tanto? Eu tomei banho anti ontem...
     - Senhor Adonias, senha 451!
     E aqui, será que a gente tem que tomar banho também?
     - Ei, senhor!
     Me cutucou uma mocinha, jovem jovem. Tinha o cabelo todo colorido.
     - Alí, no caixa vazio.
     - Eu vi mocinha, mas a gente tem que esperar chamar né, e...
     - Senhor Adonias, senha 451!!
     - Olha aí, agora sim.
     Jovens, sempre ansiosos. Vivem com pressa, morrem pressa. Sentei-me em frente ao atendente.
     - Pois não senhor Adonias, em que posso ajudá-lo?
     - Boa tarde meu jovem...
     Apertou os olhos pra tentar enxergar. O olho, na verdade. Só o direito funcionava. O esquerdo mal servia pra cair cisco.
     - Saulo.
     - É Paulo senhor Adonias.
     - Pois bem Saulo, se eu só disser você não acredita, então vou te mostrar uma foto, mas promete que não vai olhar muito nem se apaixonar?
     - Me apaixonar? Prometo sim, Seu Adonias.
     - E eu acredito em você, Saulo. Lindo nome, é o mesmo nome do meu sobrinho sabia? Nossa, mas ele era levado. A gente tinha que correr atrás dele na casa inteira pra poder dar banho. Você também não gostava de tomar banho?
     - Não, Seu Adonias. Eu gostava de tomar banho. Me desculpa apressá-lo, mas é que a fila está grande, preciso que me mostre logo a foto e explique o motivo.
     - Como você sabe da foto? Ah sim, sim, eu te disse. Mas preciso que prometa, Saulo, você não vai se apaixonar nem colocar pro computador aí minha foto?
     - Não seu Adonias, não vou.
     - Tá bom.
     Adonias levantou-se, fuçou o bolso direito, puxou do bolso três cartelas da mega-sena e um lenço: Bolso errado. Do direito sacou a carteira. Atrás de onde se guarda as notas puxou uma foto, antiga. Em preto e branco.
     - Olha aí, menino. Que coisinha bonita. Tá vendo esse lenço aí na cabeça dela? Fui eu que dei. Você consegue perceber que o rosto dela tá mais iluminado do que o resto da foto? Eu vou te contar uma coisa, quando eu chegava cansada só esse sorriso me deixava novinho em folha. Dava vontade de dançar assim ó.
     Levantou e tirou a bengala pra dançar. Ensaiou até alguns giros, balançou o corpo e sorriu. Pra quem visse de longe, ou de costas, era nítido que estava dançando tango, ou bolero. Ou qualquer coisa.
     - Tudo bem, Seu Adonias, é uma linda foto, com todo o respeito, mas...
     - Espere Saulo. Eu sei que vocês tem algumas prioridades, mas eu preciso explicar melhor para que entenda bem. Catarina é daquele tipo de mulher que mesmo quando se despede deixa no ar aquele gosto, aquele som quase inaudível de um suave acorde de violão, que ecoa e vai abaixando devagarinho e muitas vezes, mesmo depois de minutos, anos ou décadas, ainda pode ser ouvido no fundo dos tímpanos, ainda pode ser sentido no ápice de um suspiro. Eu só preciso voltar e a tirar pra dançar pela última vez.
     - Eu entendo seu Adonias. Porém aqui são abertas apenas raras exceções. Eu posso conversar com a gerente, mas não lhe garanto nada.
     - Isso, faz isso Carlo. Olha tem um rapaz que tenho certeza que vão deixar ele voltar e ele tem uma lambretinha. Disse que posso ir e voltar com ele na garupa. Prometo que volto com ele, assim fica mais fácil e...
     - Tudo bem Seu Adonias, um minuto.
     Carlo é um anjo. Não digo isso pela auréola ou pelas asas não, mas tenho certeza que vai me liberar. Talvez eu diga a Catarina o quanto a amo, e depois de comermos um lanche de mortadela dancemos um pouco.
     - Babyyyyy.... Do you wanna dance?






     E já estava em pé de novo dançando com a bengala
     Enquanto isso Paulo apresentava o caso a sua gerente, que olhando pela janela pedia a Paulo que a mostrasse quem era Adonias.
     - Aquele senhor, dançando com a bengala.
     Disse Saulo, digo Paulo.
     Alguns instantes depois a própria gerente decidiu ir dar o resultado do caso para o senhor Adonias.
     - Boa tarde, Senhor Adonias?
     Ainda dançava.
     - Pois não, senhorita.
     -Vejo que tem bastante disposição. Belos passos, sou obrigada a admitir. É um prazer, sou a gerente. É Jhonny Rivers que estava cantando?
     - Sim, era como Catarina me chamava, o seu Jhonny Rivers.
     - Sabe que até parece um pouco? Ele já passou por aqui
     - Que honra. Mas então minha jovem diga-me, está autorizada a minha breve volta? O Carlo te disse sobre a lambreta também?
     - Disse sim Seu Adonias, disse. Porém é com tristeza que devo lhe dizer que mesmo assim não poderemos autorizar que volte. Mas, devido o encantamento e a sinceridade com que o senhor transborda quando fala de sua mulher lhe abrirei uma exceção. Poderá enviá-la um bilhete. Só isso poderei fazer pelo senhor.
     - Entendi. Sabe, tem muita gente aí na fila que precisa mais do que eu mesmo, O rapaz da lambreta mesmo, merece e como. Não tinha me oferecido a carona como lhe disse, mas tenho certeza que não negaria. Pois bem, tem papel e caneta?
     - Tenho sim, aqui está. Leve o tempo que precisar.
Seu Adonias sentou-se mais ao lado durante alguns breves minutos e escreveu, quase sem pausa, exceto pelas duas vezes que nem percebeu o término do papel e escreveu uma letra ou duas na mesa. Levantou-se e entregou o papel à gerente
     - Está aqui minha jovem. Para que não se confunda eu vou mostrar mais uma vez. Pra você não tem problema.
Sacou da carteira mais uma vez a foto de Catarina e a mostrou.
     - Está certo, Seu Adonias. Agora enxerguei bem, não vamos nos enganar.
     - Muitíssimo obrigado pela atenção. Qual o seu nome minha jovem?
     - Iris, Senhor Adonias.
     - Obrigado Liris. Agradecido.
Colocou o chapéu, passou a mão na bengala e se retirou. Na saída, quando passava pelo rapaz da lambreta lhe deu dois tapinhas costas e saiu pela porta por onde entrou.
     - Que senhor simpático não é Iris? - Disse Paulo
     - Sim, tem uma alma de criança

     Um pouquinho distante dali, Catarina entrava em sua residência. Totalmente vestida de preto, e seu sorriso já não iluminava mais um quarteirão. A perca de seu marido ainda era recente e na verdade, nunca deixaria de ser. Ainda era cortante não poder vê-lo sentado na sala, não poder sentir suas mãos tão inquietas e reconfortantes mandando pra longe os problemas da vida. Não sabia da onde ainda tirava forças para viver.
     Na mesa da cozinha, ao entrar, percebeu um bilhete. Estranhou porque era exatamente onde seu marido gostava de deixar recados. Às vezes escrevia:
     "Compra Mortadela pra quando eu chegar?"
     Outras vezes:
     " Neste exato momento estou correndo o risco de ser demitido. Porque estou lembrando de como amo o seu sorriso ao invés de estar trabalhando. Se eu for demitido viveria comigo a base de pão e água? Viveria? Obs: Compre mortadela. Te amo."
     Lembra disso, apesar de doloroso, era delicioso.
     - Isso deve ser algum folheto esquecido - Pensou. Foi até a mesa e o leu, dizia:

     - Dó, reconheço, tenho de mim mesmo por não ter lhe falado todos os dias o quanto eu te amei, e ainda amo. Mas é só lembrar dos teus olhos vivos e alegres, soltos ao meu redor, ou de como se encantava por pequenas coisas, que entendo que ainda não te deixei, e nem vou. Porque você é essa canção da qual eu nunca me canso de cantarolar por aí. Nos dias de alegria, pra me sentir ainda mais feliz. Nos dias mais amenos, confusos, para me revigorar e nunca te deixar fugir. Dó, de mim mesmo, eu não mais sinto, porque levo aonde for a sua melodia gostosa comigo.
                                                                                Do seu Jhonny Rivers"

     Os olhos de Catarina se encheram de lágrimas. Não de sofrimento, mas para, de algum modo, fazer fisicamente o que o seu coração já estava fazendo: Transbordando. E começou a dançar sozinha, no meio da cozinha, enquanto preparava um sanduíche de mortadela
     - Do you, do you, do you, do you wanna dance, Baby... do you wanna dance?







quarta-feira, 2 de julho de 2014

Selva de pedra

     Mais um dia cansativo e é chegada a hora de ir pra casa. Me despeço e saio em direção ao metrô, a pé. A noite não é quente nem fria, mas derrama um leve sereno, que se parar pra pensar é quase invisível aos olhos mais desatentos, só pode ser visto contra as luzes do poste, que os dá um leve tom de laranja mercúrio. A rua está vazia, sigo caminhando calmamente como se esquecesse já estar atrasado para alguma coisa, não me lembro exatamente o que é, mas sempre estou. Quando a desatenção se dissolve um pouco e decido parar de me concentrar nas cores em que uma luz pode tingir o sereno, levanto a cabeça e a vejo.
     E era exuberante. Na verdade era de uma beleza introspectiva, como se fosse um segredo baixinho contado ao pé do ouvido ou uma visita daquelas que está a explodir mas não tem coragem pra levantar e e ir ao banheiro. Resumindo: Era discreta. Poderia até falar do seu cabelo curto e bem cortado, que ia descendo e acompanhando o formato do seu rosto, do seu delicado cachecol enrolado ao pescoço, do seu caminhar leve e calculado ou até mesmo da sua cintura sutilmente marcada pela blusinha por debaixo da jaqueta, mas seria perda de tempo. Ela era linda por ser discreta.
     Nos cruzamos e após uma curta troca de olhares seguimos pelo mesmo caminho, por uma rua despovoada e quase muda. Ia ela caminhando na minha frente e eu atrás, admirando como era delicada. Já era noite e me ocorreu que toda essa sua suposta discrição talvez se devesse àquela situação, ao lugar. Decidi apertar um pouco e passo e puxar assunto, ou talvez cumprimentá-la. Quem sabe um sorriso e perguntar se queria companhia até o metrô. Ela com certeza percebeu que eu acelerava a marcha e também se adiantou. 

     A verdade é que foi horrível. Sentir aquele medo, aquele desespero vindo daquela mulher, sentindo que ela fugia de mim quando no mais o que eu tinha oferecer era um sorriso e algumas piadas descompromissadas. Se as cidades grandes são as selvas de pedra, naquele momento eu me senti como uma hiena urbana das ruas desertas e solitárias.
     Pensei em cumprimentá-la, oferecer companhia até o metrô, mas achei melhor não. Simplesmente a ultrapassei como se ela nem existisse e continuei minha caminhada. Nem muito rápida nem muito lenta, afinal eu não podia acelerar muito e deixá-la pra trás, sozinha, em meio àquele moderno vale escuro. Caminhamos assim até o metrô, e foi nítido perceber o alívio com que aquela mulher tão linda e discreta, completou e venceu mais aquela batalha diária. 

     Eu não descobri sequer o seu nome, mas fiquei feliz de, pelo menos naquele momento, dar exatamente o que ela precisava: Um pouquinho da minha indiferença à "fêmea" e um pouquinho de compaixão à mulher. Porque eu sou um homem, não uma hiena.




quarta-feira, 18 de junho de 2014

Vem viver!

     O melhor homem que eu conheci me amava como quem sai pra caminhar sem rumo em um ensolarado fim tarde de domingo, a lá Caetano, sem lenço e sem documento, apenas aproveitando cada descoberta, cada sorriso, cada delícia, não buscando chegar a lugar algum. Não havia destinos que não pudessem ser alterados, nem objetivos que não fosse nós dois. A única coisa que importava era a minha companhia. Se me levasse ao céu ele estaria ali, se fossemos ao inferno, também.
     Quando não se tem um destino final, um objetivo a ser focado, podemos enfim nos tranquilizar e aproveitar o caminho. Quando não estamos focados em seguir a trilha, podemos nos desprender e nos aventurar mata adentro. Cada imprevisto, então, se torna um novo motivo pra sorrir, para apreciar e conhecer a si mesmo. 
     Viagens não são feitas de destinos finais. Sexo não é feito de orgasmo. Lutas não são feitas de conquistas. 
     E ele sempre me dizia, em meio a falta de ar e aos suspiros de uma noite de amor:
     - Perca o foco mulher, perca o foco! E aproveite a vida!
     Me fez entender que a parte mais gostosa de duas pessoas juntas, é o descobrimento mútuo. É embarcar nessa viagem se deliciando com cada situação, cada imprevisto, cada brilho no olho, cada lágrima e decepção. E não viajar com os olhos vendados pelo objetivo final. Às vezes é preciso dar o sinal e simplesmente descer do ônibus.
     Me fez perceber que cada vez que nos abrimos e nos entregamos para conhecer o outro, acabamos conhecendo e mergulhando dentro de nós mesmos.
     O melhor homem que eu conheci me amava como se eu fosse um agradável caminho. Caminho pra onde? Pra lugar algum! Isso é a vida! E me dizia sempre: 
     - Vá viver... ou melhor, Vem viver!




segunda-feira, 2 de junho de 2014

A lenda de Simão

     A cabeça doía. Era como se fosse prensada nas laterais por um grifo. Já era hora do almoço e decidiu, então, que caminharia até o parque para clarear a mente. E assim foi ele, caminhando despretensiosamente até o parque. Num primeiro momento desanuviou. Caminhando tudo era mais simples, mais fácil de lidar. A cabeção não mais doía, a dívida não parecia mais um monstro e a sua pífia apresentação sexual na noite anterior não era nada demais. Aparentemente brochar é coisa normal, banal.
     O parque parecia lugar perfeito. Pessoas felizes, correndo com seus pequenos cães e colhendo os bons frutos de uma vida mais integrada à natureza e não tão sedentária, sentou-se. Anuviou. Tentou observar as crianças brincando no playground, os pássaros ciscando migalhas no chão, sem sucesso. Tentou até olhar as mulheres fazendo exercícios com suas calça de yoga tão agarradas, praticamente inexistentes. Anuviou mais ainda.





     Talvez esse lance de parque não tenha sido uma boa ideia. Decidiu levantar-se e ir comer algo, um churros talvez e saiu andando novamente. Desanuviou. Não, não foi o churros. Mas Simão percebeu que encarava melhor a vida quando caminhava. O grifo não estava mais lá, o rosto era leve e as sobrancelhas já não pesavam mais.
     Chegou em frente ao serviço, já cinco minutos atrasado da pausa para o almoço. Nem hesitou, seguiu em frente, passou direto caminhando. E quer saber de uma coisa, pensou Simão, "Não vou parar nunca mais!". E assim Simão cumpriu rigorosamente aquela promessa feita naquela meio nublada meio ensolarada quarta feira à tarde, e nunca mais parou de caminhar.
     Simão conheceu 190 países ao redor do planeta. Alguns deles três vezes, outros seis. Mas por descuido ou desleixo esqueceu de um bem pequenininho chamado "Tuvalu". Fica ali meio escondido perto do longe e longe de lugar algum. Paísinho bobo, quase sem graça. Mas dizem que, às vezes, quando é fim de tarde, o sol bate em um escultura de gesso que há em uma pracinha na periferia e desenha no chão a imagem de um cavalo cavalgando sobre um homem. É preciso um pouco de imaginação pra ver, isso é verdade, mas dizem que está lá. Dizem também que nessa mesma praça há um cachorro vira-lata que luta com a própria sombra, e que os bebuns param todos para ver e apostar. Até hoje, pelo que me disseram, está 11X2 para a sombra. Mas Simão nunca viu isso.





     Simão experimentou pratos gastronômicos de todo o planeta. Desde o autêntico salsichão alemão aos insetos fritos na Tailândia. Degustou dos mais sofisticados vinhos italianos a uma estranha bebida feita em Bangladesh com água do mar. Detalhe: Em Bangladesh não há mar. Mas nosso incansável caminhante não contava que deixaria passar Dona Berê e seus bolinhos de chuva acompanhados com suco de groselha. Discuti-se até hoje que o tempero especial de Dona Berê e seus quitutes eram suas mãos digamos, não totalmente higienizadas. Na verdade sua falta de higiene era senso comum em quem os provava, mas o sabor valia a pena. E a groselha era tão doce, tão rosa. Sempre caía na camisa. Mas Simão não os experimentou, nem se sujou.





     Simão conheceu quase todas as mulheres, conheceu suas bocas: Carnudas (só nos lábios de cima, só nos lábios de baixo e nos lábios de cima e de baixo), magras, desenhadas, retas, sensíveis, gulosas, botocadas. Conheceu suas fantasias, seus dramas e horrores, conheceu seus cotovelos, suas saboneteiras, suas panturrilhas, suas tosses, seus choros engasgados, seus choros de corrente, enfim. Aprofundou-se. Nisso Simão foi quase perfeito. Pois é, tem o "quase" antes do "perfeito", e eu que escrevo sobre Simão de bom grado e não fui remunerado, não poderia retirar esse quase daí, e nem que fosse tiraria. Simão foi quase, porque não teve o prazer de conhecer Sofia. Doce Sofia.
     Ela tinha aquele jeito gostoso de deitar na ponta da cama deixando a cabeça pendurada e o pescoço à mostra quando a gente ia no banheiro. Era assim, a gente ia só no banheiro, e quando voltava estava ela ali, deitada de cabeça pendurada e mostrando como consegue ser ainda mais linda de ponta cabeça. E tinha seus ombros tão delicados, dava aquela vontade louca e sem freios de abraçá-la sem deixa-lá também abraçar a gente, deixando-a com os braços presos à frente do próprio corpo, sabe? E sempre antes de você pensar em dizer algo, ela te olhava com cara de menina e pedia um beijo no queixo, ali mesmo de ponta cabeça. Essa parte é a mais inexplicável de Sofia e é a responsável pelo sufixo "doce" em seu nome. Mas Simão não a conheceu. Aliás, para Simão, Doce Sofia, é apenas Sofia. Pobre, pobre, pobre Simão. Pobre eu digo não de dinheiro, mas de doçura da Sofia.



     Simão faleceu hoje às 12h40, na hora do almoço. Hoje em seu velório foi enterrado, como havia escrito e solicitado em seu testamento, ao lado de seu sapato, companheiro inseparável. Reza a lenda que percorreu toda a sua jornada, quilometro por quilometro, metro por metro, com esse mesmo par de sapato.
     Simão deu no total seis voltas ao mundo completas, conheceu 190 países (todos, exceto aquele perto de nada, já citado), dobrou inúmeras esquinas, ouviu infinitos badalos de sinos de igreja e experimentou 214 sabores de sorvete. Mas não pode sequer apostar na sombra. Quem sabe até apostasse no cão, gostava de ser azarão. Não provou os bolinhos de chuva quase higiênicos de Dona Berê, não sujou a camisa com seu suco de groselha. Não conheceu Sofia, tão doce.
     Simão, caminhou tanto, tanto, que viveu em vão. Caminhou tanto que viveu, da vida, no vão.








quarta-feira, 21 de maio de 2014

Meia taça

O nosso amor 
talvez tenha muito mais sentir,
do que sentido

Talvez seja
um gemido engasgado
que encontrou um ouvido atento
Uma minha língua faminta
que percorreu um corpo
suplicante por um toque 

mais profundo

E só assim pode sentir o coração
Bater mais forte

Quando o seu 
solavancou prensado
contra o meu...
Era amor?

Eu queria te penetrar,
atravessar,
Como quem transborda
O que já não cabe em um corpo

Porém você mesma
ainda não havia se tocado,
tido consciência de si.

E esperava, apenas,
Que eu a consumisse

Sem perceber que uma mulher,

assim como uma taça,
ao ser consumida
Fica vazia

As taças de vinho

As mulheres, de vida

E o que é vazio,
incompleto,
mata apenas meia sede,
Sacia apenas meio desejo 

Dá vida a apenas

Meios amores

Aqueles,
de meia taça.




quinta-feira, 8 de maio de 2014

Cúmplices

Seus olhos sorriem pra mim
E os meus dão risada
ao te ver chegar 
Sua boca me diz que não, 
seu corpo me seduz e 
ao mesmo tempo me confunde
Mas seus olhos, 
Ahh seus olhos... 
Meus eternos cúmplices. 
Esses sim 
nunca me enganaram
Nem sequer tentaram. 
Me dão muitas certezas 
e apenas uma dúvida: 
Como podem ser tão pequenos 
e guardar uma imensidão?



terça-feira, 6 de maio de 2014

Homem ao mar

     De nada adianta buscar o chão quando a sua cabeça gira em torno do eixo de uma corrente de água. De uma onda forte e incontrolável, mas sem rumo. Os pés firmemente fincados no chão de nada servem quando as águas estão revoltas. 
     Por aquele milésimo de segundo a mísera sensação de segurança que você tem são os seus pés forçosamente querendo agarrar-se ao chão. Mas o chão é de areia e sem que nada possa ser feito você sente aqueles pequeno, minúsculos grãos de mundo se esvaindo por entre os vãos do seus dedos. É isso que o nosso chão representa: O nosso mundo. A areia vai se dissolver por entre os seus dedos levando embora seu chão, fazer ele bater na sua nuca e pedir passagem. Seguir seu próprio rumo. Mas sempre há tempo suficiente pra seguir as bolhas, guiar-se à superfície e encher os pulmões. Deixá-los plenos de ar.
     Enquanto aquelas ondas bravas me engoliam, pra depois me regurgitar, fazendo meu corpo rolar, fazendo-me dançar conforme a música, eu percebia que um homem, do mar nada pode esperar além de que seja ele mesmo. Incontrolável, intenso, imenso, inesperado.
     E quando um oceano se torna intenso demais, aparentemente invencível diante da sua limitada ideia de ego, ele te cospe. E você fica ali, de batimentos acelerados, boca salivante, porém com sede devido a água salgada do mar, com o corpo exausto, estirado em frente a um poderoso oceano, cabendo apenas admirá-lo. Isso não é uma derrota. Isso não é perder, porque não há competição.
     A verdade é que, nessa hora, de nada servem os galões de oxigênio, os barcos, os botes salva vidas. De nada servem suas conquistas, suas vitórias, seus pesares, seus porquês. De nada adiantas deslizar sobre o mar, de nada adianta fugir, porque quando as águas do mar estão revoltas é preciso que você mergulhe e as enfrente.
     Apenas elas tem o poder de transformar meninos em homens. E nesse momento já não cabe mais esperar nada em troca. Não cabem ressentimentos, lamúrias, indecisões. Nesse instante um homem é todo ação. Fechado pra si e aberto ao mundo, é vazio de ego e abundante em amor. É livre pra ser o momento.
     É um homem ao mar, e nada mais.


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Energia do bem

E o sol nasceu de novo,
em tantos outros lugares.
Iluminou tantas paisagens,
tantos sorrisos, tantos olhares

E toda essa luz,
toda essa energia do bem,
a fez sorrir também.

O sol coitado,
ficou assustado
por ver algo tão radiante,
algo que mais do que ele brilhasse,
de um modo como nunca se viu.

Mas mesmo sem entender ao certo,
deixou o orgulho de lado
e se rendeu conformado.
Que talvez não seria só dele essa função,
de os rostos tirar da escuridão,
E por seu sorriso deixou-se apaixonar

No fim das contas,
por ela sentiu-se iluminado,
e como um bobo,
também sorriu despreocupado.



segunda-feira, 31 de março de 2014

Vida rascunhada

        Fico me perguntando
        Sobre a história por trás de cada poesia.
        Elas são sempre mais interessantes
        Do que o resultado,
        Mas quem a escreve
        Sempre guarda pra si, afinal,
        Quem quer saber de rascunhos?
       
         E a história por trás de cada vida?

         Aos poucos vamos nos tornando,
         Ou nos conformando,
         Com o fato de que somos apenas
         Uma arte final perambulando por aí.
       
         Uma obra-prima de nós mesmos.

         Pronta pra ser interpretada
         Através de cada olhar,
         Nos espremendo pra passar
         Por cada filtro.

         No fim das contas não somos mais um só,
         Somos mil.

         Quando me perguntou:
         E aquele poema foi pra mim?
         Eu só pude dizer: Talvez.
         Um poema ou um verso tem mil faces
         Quando não explicado.
         Se torna imortal.

         Ou melhor,
         Está acima da vida e da morte.
         Nasce e renasce com cada olhar que o toca,
         Com cada ouvido que o sente
         E com cada boca que o vê.

         Tudo trocado,
         Mas nós somos assim mesmo,
         Tudo enrolado.

         Para todos que me vêem
         Sou apenas un gran finale.
         Mas algum dia,
         Nós ainda nos sentaremos no chão,
         No canto de uma sala qualquer
         Apenas com as nossas lixeiras,
         Aquelas onde jogamos
         Todos os nossos rascunhos.

         E então seremos nós dois,
         Desamassando todo aquele papel,
         Repleto de sofrimento,
         De desejos,
         Devaneios sem sentido,
         E alegrias sem motivo.
         Sem dúvida,
         Em algum desses papéis
         Há de haver algum amor.

         Daqueles que só é capaz de encontrar
         Quem teve a coragem
         De revirar o lixo,
         De trazer à tona
         Os rascunhos
         Que nunca estão sobre os holofotes.

         Os rascunhos
         De uma vida inteira,
         Que realmente importam
       
         Afinal,
         A vida é muito mais rascunho
         Do que arte final.



   

terça-feira, 11 de março de 2014

Não é só passo

Tens um olhar lindo enquanto dança, 
Não pude deixar de notar 
Teus olhos funcionavam como meu eixo
Por mais que tudo girasse, 
se desencontrasse e se perdesse,
meus olhos não queriam perder os teus. 
Não podiam. 
Não deviam.

Sempre atenta, concentrada em mim. 
Totalmente tomada, 
Não para com os meus hábitos à mesa
Na hora do almoço, 
pro carro que dirijo 
Ou pro modo como me visto. 
Somente pro meu corpo
Pra onde a conduzo, 
Pro modo como te desejo

Era como se o mundo 
virasse do avesso, 
e o palco não fosse mais perante a plateia, 
mas sim, atrás das cortinas. 
Num lugar só nosso 
onde não há uma só crítica, 
atenta aos nossos deslizes e gracejos, 
um lugar onde exista apenas dois corpos, 
suados, envoltos, encaixados
Pulsando, juntos
          Sem nenhum repulsa
          Sem qualquer pudor
          
A música termina, 
e como um sol se pondo, 
as cortinas se erguem 
e nos devolvem à realidade. 
Beijo seu rosto, 
me despeço 
e sigo para o outro canto do salão. 
Paro por um segundo 
para tentar lembrar seu nome, 
e tentar me lembrar do aroma 
tão adocicado do seu pescoço

Dança, não é só passo.
Talvez seja um universo 
que nos devolva tudo aquilo que,
pela vida, nos foi tirado
É caso de amor com o seu outro lado
          É aquele braço tão disposto,
          firme,
          Em que você tantas vezes 
          quis se deixar levar

          É a possibilidade
          de se apaixonar 
          cada vez que a música começa

          E, se ela dura tão pouco,
          É preciso que seja intenso
          É preciso que seja pra sempre,
          Até que a música acabe

Mas não há tempo para considerações 
nem devaneios 
A música vai começar de novo

E eu, 
preciso me apaixonar novamente.