domingo, 22 de novembro de 2015


     Uma paixão: Capas de livros. Não importa se de livro novo recém parido na editora, se já carcomido e abandonado num asilo sebo(so). Uma capa é sempre uma capa, intacta ou rasgada, perfumada ou embolorada.
     Como é prazeroso passar as palmas das mãos, também as costas delas, sentindo sua textura, seus relevos (quando estão presentes) e até mesmo suas pequenas ranhuras. Confesso que em, alguns casos, até os antebraços, mas não quero aqui parecer um maníaco, há livros infantis e gibis da turma da mônica nos escutando.
     Tudo soa como um ritual, como uma preparação para uma posterior abertura, minha e do livro. Porque um bom livro é lido dessa maneira, primeiramente é preciso deixar o coração aberto. Seja uma ficção ou um terror, uma comédia ou um drama. Um livro pode nos ensinar tudo, ou nada. E, na maioria das vezes, isso depende mais da nossa disponibilidade em aprender do que da capacidade que aquelas letras tem para nos ensinar.
     Certa vez li um poema de Neruda em que podia sentir o seu sentimento até mesmo no espaço entre as palavras, nitidamente era quando sua mão batia forte na tecla de espaço (será que foi escrito à maquina?) que ele suspirava, um sorriso iluminava em seu rosto e ele podia, então, continuar a escrever. Dizem sempre que os melhores poemas são escritos em momentos de extremo sofrimento, mas sempre imaginei que aquele em especial fosse uma exceção.
     Mas não nos desprendamos do nosso assunto principal, a capa. Afinal, o que uma capa despretensiosa, mas não desmazelosa, que serve apenas como invólucro do que realmente importa, pode nos ensinar?
     Que a capa em si, também é puro conteúdo. Que o seu toque, seu cheiro, suas cores vivas em relevo no papel ou apenas nas nossas vistas, também nos ensinam. Que a sensorialidade é indispensável. Assim como também é o corpo, a nossa própria capa.
      Cuide dele, perfume-o, fortaleça-o, deixe-o lindo. Valorize cada sensação, cada toque, cada experiência e cada vivência. Levante-se e faça, coloque-o em movimento. Aprenda com ele, ensine-o também e sinta, sinta muito. Cuide de sua capa e ame-a. E então, não se divida mais entre capa e conteúdo, interior e exterior ou dentro e fora. Seja o todo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015



Dá vontade de fazer chover.
Pra poder ver seus pelos ouriçados, orvalhados de suor.
E depois da chuva
respirar bem fundo
a sua pele sem perfume nenhum,
deixar os pulmões plenos de ar
com seu cheiro de mulher fértil,
que dá asas a imaginação pra que ela voe pra onde quiser.

Dá vontade de ver seus braços enraizando no meu corpo,
centímetro por centímetro,
buscando nele seu alimento e,
ao mesmo tempo, nutrindo-o.
Dá vontade sim,
de te observar contra luz do sol
admirar as oito cores do espectro refletidas nos seus traços
reluzindo nos seus olhos.

Dá vontade de tanta coisa,
mas não precisamos de pressa,
nós temos tempo.
Não o tempo do calendário,
que regula os dias através do nascer
E do pôr-do-sol,
que nada mais é que um mero
piscar de olhos da natureza.
Mas um tempo regido pela nossa capacidade de perceber detalhes, de sentí-los, vivenciá-los.

Algumas coisas são atemporais
E não estão sujeitas ao relógio
Preso à parede.
Uma delas é o modo como te admiro enquanto te confundo
com a própria natureza
e faço caber algumas vidas em cada toque, em cada suspiro, em cada palavra.


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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Côncavo ou convexo? (felinos)


     Todos dizem sempre a mesma coisa sobre os gatos, sempre. São antipáticos, prepotentes, independentes. Eles tem seres humanos, e não o contrário. Que são interesseiros, não gostam de carinho e desfilam para cima e para baixo com aquele ar de "não tô nem aí pra você". É, as pessoas dizem. Quem já teve gatos sabe que isso não é bem verdade, pelo menos não todo o tempo.
     A noite anterior deixou suas marcas, tirou ares do pulmão que ainda não trouxe de volta. Cada dia me apaixono mais por uma parte diferente do seu corpo. Ando encantado com suas saboneteiras, aparentes. As descobri recentemente enquanto tirava suavemente a alça do seu soutien. Meus dedos resvalaram nelas e resolvi acompanhá-las, primeiro com as mãos, depois com a língua. Eu desenhava um arco convexo acompanhando o desenho de suas saboneteiras e um convexo brotava também nos seus lábios. Pra dizer a verdade sempre confundi isso concavo e convexo. Se alguém souber, por favor, cale-se. Não importa agora. O fato é que já é manhã, posterior a uma paradoxal noite bem/mal dormida. E como que em um lapso, eu entendo os gatos. Assim, quase sem sentido.
     É como se os cachorros não ficassem à vontade o suficiente ao nosso lado quanto os felinos. Como se o mundo deles não existisse sem nós. Mas os gatos, esses sim ficam à vontade o suficiente para, em alguns momentos, ignorarem a nossa presença. Mas basta se levantar e ir para outro cômodo e ele irá atrás. Eles querem viver sua vida, lamber-se para depois vomitar seus pêlos por alguns momentos sem se importar se vamos ou não lhes dar carinho, mas mesmo assim nos querem por perto.
     Absorto pelo barulho da minha máquina, batendo no papel enquanto estou sentado diante de minha escrivaninha, te vejo entrando pela porta da sala. Vejo-te desfilando só de calcinha por trás da fumaça que sobe da minha xícara de café e se deitando no sofá. Continuo escrevendo, mas não sem antes me levantar e beijar sua boca acarinhando levemente seu rosto minhas duas faces. Não quero ficar distante. Não quero ficar grudado, não agora. Mas me sinto à vontade o suficiente para ter você em meu mundo também, no breve momento em que ele se passa atrás da fumaça que sobe da xícara de café que levo à boca, nas letras que faço nascer no papel em branco. Quero um universo só nosso, mas quero também, dentro do meu próprio universo, poder olhar pro lado vezenquando e ver que está ali, confortavelmente serena com a minha presença, e vice-versa. Eu entendo os felinos.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Frestas

Que a nossa relação não seja restrita ao toque,
mas principalmente ao desejo
e a total aceitação que o permeiam.

Que não sejamos reféns
apenas das doces palavras,
mas nos fortaleçamos também
nas boas ações e intenções
que muitas vezes
a mais dura das palavras esconde.

Que não nos beijemos esquecendo
do furor incontrolável
que passeia pelo nosso corpo
causado pela simples ideia do encontro de nossas línguas,
furor esse capaz de fazer
do toque dos nossos lábios
a conexão de nossos corpos,
todos eles.

Que, quando estivermos juntos,
Ou mesmo distantes fisicamente, possamos ser, um para o outro,
energia e acalento.
Energizando pela manhã
e acalentando ao fim do dia.
Em algumas vezes, o contrário.

Que nosso amor seja,
um para o outro,
acalorado, penetrante e resplandecente assim como a  luz do sol.

Que ele tenha força o suficiente
para se espremer e se moldar
por entre as frestas do trivial cotidiano e consiga ser visto mesmo quando as janelas, ou os olhos,
estiverem fechados.

domingo, 1 de março de 2015

Horizonte

Quando pequeno tudo me era permitido A caixa de papelão podia voar E, de fato, voava A vida não tinha paredes Tinha horizontes A idade veio E os limites, antes inalcançáveis Deram lugares a paredes Cobertas com delicadas Porém espessas cortinas Dispostas sobre janelas, Cabe dizer, Cada vez menores Até que me vem você E sorri Não me permite entender, Assimilar, rotular Apenas sorri E junto com o leve descolar de seus lábios Desvenda, Por trás daquelas tão pesadas cortinas Grandiosas janelas
Janelas de onde eu posso
Novamente,
Enxergar um horizonte
Não mais inalcançável


Horizonte que,
Caso queira,
Posso percorrê-lo
De ponta à ponta
De uma covinha a outra

Bastando apenas que você sorria




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Não seja você

Quando as discussões surgirem
não se prenda aos fatos, eles não importam. 
Me tome nos braços, tire-me pra dançar, 
seja meu cantor, meu dançarino e a nossa platéia. 
Eu quero sua intenção mais profunda,
não explicações ou desculpas esfarrapadas. 

Me ofereça, às vezes, o que eu nunca quis. 
Diga-me aquilo que nunca ouvi 
tenha o gosto que nunca provei. 
Seja inabalável e impenetrável 
como uma comporta que suporta o meu oceano, 
seja acessível e permissivo 
como uma porta de botequim que nunca se recusa, 
sempre aberta a confortar mágoas, 
Seja do mais sujo, seja do mais velho, do mais bêbado. 

Elogie-me. 
No que mais gostar em meu corpo, uma vez ao dia. 
No que não gostar, três. 
Me transborde, não me engesse, não me amarre, 
não me impeça. 
Simplismente deixe-me fluir, 
e quando me tornar infinita 
não me peça para estar pronta em quinze minutos. 

Não tenha pressa ao tirar minha roupa, 
antes disso tire minhas camadas, uma por uma. 
São nelas que escondo meus medos. 
Primeiro aquele bem bobo, de não ser boa o suficiente. 
Depois o de me entregar, de amar novamente, 
e por último o de não ser abandonada jamais. 
Não prometa que não vai me abandonar, 
porque talvez você não possa cumprir. 

Porém pra isso há um solução.
Quando nossos corpos estiverem perdidos 
um no do outro,
e os pulmões acelerados furtarem-se de ar, 
apenas me abrace forte e deixe o seu coração golpear o meu. 
Palavras podem ser terríveis, 
mas eu jamais tiraria satisfações por um abraço apertado.  

Não seja agressivo, 
não seja egoísta, 
Abra mão de si mesmo. 
Não seja você, seja o amor. 
E me ofereça a cada instante de sua vida. 

Não me dê sugestões, 
eu não quero conselhos.
Não me aponte caminhos ou direções, 
apenas me dê a mão e caminhe comigo.
Me leve com você.




sábado, 3 de janeiro de 2015

Roleta russa


Depois daquela noite
Tudo que eu parecia ouvir era um ensurdecedor
gatilho batendo em seco:
Tec... Tec...
Como uma mal sucedida roleta russa,
No pé do ouvido,
Porém se quer passa por ele
Ressoa direto n'alma
Roleta talvez, porém russa
Jamais

As russas sabem o que querem
Sabem bem lidar com o seu lado maligno,
Perverso.
Seria russa se o tambor estivesse cheio,
Sem possibilidades de erro
Pra ser russa tem que haver pólvora
Tem que haver explosão,
Sempre.

Como quando sentia o teu corpo
Fibrilando e respirando junto ao meu
Tua boca mordendo a minha, fazendo-a sangrar
Não buscando a dor
Mas algo que há depois dela

O teu pescoço delicado, exposto
Queimado de cigarro
Era como uma licença
Teus pulsos finos procurando
A firmeza da minha mão, 
Buscando em mim o que no mundo
Está guardado, o que nos outros
Está escondido, marginalizado
E isso tudo era como uma licença

Uma indulgente licença pra ser ruim

Todo o meu desejo guardado
Aquela pulsão animal
Capaz de penetrar, avançar, dilacerar
Agora é sua também

A gente não consegue perder esse costume
De buscar a nós mesmos no outro
Teu olhar agora me fulmina
E busca em mim exatamente o que sabe
Que também há dentro de você

Você, com seus cabelos vermelhos,
Como uma autêntica russa,
Me olha e me desperta.
Me arranha, me morde, me chupa
Me liberta.

Cola de novo teu corpo no meu,
Gira a roleta mais uma vez
E puxe o gatilho...
Não erre.