Uma paixão: Capas de livros. Não importa se de livro novo recém parido na editora, se já carcomido e abandonado num asilo sebo(so). Uma capa é sempre uma capa, intacta ou rasgada, perfumada ou embolorada.
Como é prazeroso passar as palmas das mãos, também as costas delas, sentindo sua textura, seus relevos (quando estão presentes) e até mesmo suas pequenas ranhuras. Confesso que em, alguns casos, até os antebraços, mas não quero aqui parecer um maníaco, há livros infantis e gibis da turma da mônica nos escutando.
Tudo soa como um ritual, como uma preparação para uma posterior abertura, minha e do livro. Porque um bom livro é lido dessa maneira, primeiramente é preciso deixar o coração aberto. Seja uma ficção ou um terror, uma comédia ou um drama. Um livro pode nos ensinar tudo, ou nada. E, na maioria das vezes, isso depende mais da nossa disponibilidade em aprender do que da capacidade que aquelas letras tem para nos ensinar.
Certa vez li um poema de Neruda em que podia sentir o seu sentimento até mesmo no espaço entre as palavras, nitidamente era quando sua mão batia forte na tecla de espaço (será que foi escrito à maquina?) que ele suspirava, um sorriso iluminava em seu rosto e ele podia, então, continuar a escrever. Dizem sempre que os melhores poemas são escritos em momentos de extremo sofrimento, mas sempre imaginei que aquele em especial fosse uma exceção.
Mas não nos desprendamos do nosso assunto principal, a capa. Afinal, o que uma capa despretensiosa, mas não desmazelosa, que serve apenas como invólucro do que realmente importa, pode nos ensinar?
Que a capa em si, também é puro conteúdo. Que o seu toque, seu cheiro, suas cores vivas em relevo no papel ou apenas nas nossas vistas, também nos ensinam. Que a sensorialidade é indispensável. Assim como também é o corpo, a nossa própria capa.
Cuide dele, perfume-o, fortaleça-o, deixe-o lindo. Valorize cada sensação, cada toque, cada experiência e cada vivência. Levante-se e faça, coloque-o em movimento. Aprenda com ele, ensine-o também e sinta, sinta muito. Cuide de sua capa e ame-a. E então, não se divida mais entre capa e conteúdo, interior e exterior ou dentro e fora. Seja o todo.





