terça-feira, 27 de agosto de 2013

Em tempos de café expresso

  Após uma noite de beijos, suores e sabores trocados, quando meu corpo ainda se recuperava da experiência de uma "petite mort", meu coração, ainda acelerado dentro do peito, buscava consolo nos seus olhos enquanto se acalmava, enquanto todo o oxigênio daquele quarto parecia não ser suficiente. Nós olhávamos secamente. O olhar de duas almas desgastadas por sentimentos brandos, suores sem sal e cafés expresso. Porém, pela primeira vez, foi como se não nos olhássemos com os olhos, mas com o que há no fundo obscuro deles. Seria isso uma janela da alma, esta já tão enjoada de rótulos, de pretextos e mesmisses, ou apenas mais uma cavidade repleta de sangue, músculos e toda essa coisa qual a única finalidade é apodrecer?
     Você trazia um certo peso, uma certa tristeza estreitamente doce no olhar, que ao primeiro choque, me intrigou. Nem conquista, nem asco, e com certeza muito longe de desinteresse. Carregava uma beleza não estereotipada, e essa impressão descia suavemente pela minha garganta deixando seu gosto por onde passava. Lábios, boca, bochechas, gengivas, língua, garganta. Como um bom vinho. E alí, mesmo que de relance, durante uma rápida troca de olhares, sentia que já a devorava, já a consumia e a sentia novamente.
     Pela janela do nosso quarto era possível ver a água caindo, fina e desaritmada. E uma gota, intrusa, pequena e incessante pingava na nossa cama. Tarde demais pra perceber, tarde demais pra arrumar ou se importar. Não incomoda. Mas também não deixa em paz. Era a natureza cuspindo sua indiferença sobre nós. E nos fazendo lembrar quem existe pra quem.
     E sabe, não é de todo ruim ser insignificante. Talvez não viremos filmes de cinema, e talvez depois de nossa morte não sejamos lembrados pela humanidade. Mas você se importa? Pensei. Enquanto havia a colocado deitada, já sem roupa, e desenhava com minha barba em seu corpo como um andarilho qualquer que vai sem pressa nenhuma de chegar a lugar algum. Suspeitei que não se importasse, pelo modo como suas covinhas pareciam estar pintadas à mão em seu rosto, e nesta hora, pensei quão bom foi não estragar tudo dizendo algo ruim. Nem dizendo algo bom, ou dizendo qualquer coisa. Se o fizesse talvez não escutasse a sua respiração e perderia o ritmo do seu coração batendo acelerado contra o meu.
     Enquanto estávamos ali, o resto do mundo continuava girando, ignorando por completo aquelas duas almas de olhares desgastados, vivendo em épocas de amores brandos, suores sem sal e cafés expresso. E as gotas, naquele quarto, naquela cama, por sua vez, continuaram pingando exatamente do mesmo jeito. Porém, não mais só de chuva.
     Nós dois, em uma fria e chuvosa noite de inverno brindando a nossa deliciosa insignificância, juntos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A garota do momento

Lembrou-se quando aquele velho esquecido
Não esquecido por ser da escória, 
Era apenas mais um velho esquecido da memória, 
Lhe deu uma ideia sem pé nem cabeça, 
Mas pensando bem, quem sabe, 
Por ser algo tão demente, aconteça. 
Disse: Mocinha, percebe que tudo a sua volta, 
Quando você se solta, 
Parece não existir do lado de fora,
Mas sim do lado de dentro? 
Tal pergunta a fez calar, e pensar por um momento.
E se vivesse de tal forma, desvairada e intensa,
Inconsequente e divertida, que não pudesse saber,
Nem com reza braba ou macumba encardida,
Se vive um sonho ou realidade? 
O que é mentira ou o que é verdade?
E ela, que não fugia da raia, e nem perdia uma briga, 
Daquele dia em diante, tomou a loucura desse velho
Como seu trilho. Içou as velas e se lançou. 
E respondia sempre: Ah eu me arrumo, 
Quando alguém lhe perguntasse:
Mas menina, qual o teu rumo? 
E todo dia era assim, 
As flores pareciam lhe dar bom dia,
E o seu gato, por todos os deuses do céu e do inferno, 
lhe sorria. 
Estava perdida. E era tão bom não se encontrar. 
Não se achar. 
E era como ser um daqueles dentes-de-leão
Soprados pelo vento, só voando.
Foda-se o depois. 
E se o depois estiver acompanhado do passado, 
Foda-se os dois. 
Agora ela é a garota do momento, 
Sendo conduzida pelo vento. 
Não sabia mais ao certo o que era sonho.
Não sabia mais se o mundo real 
era quando da cama caía, 
E os olhos abria, ou se quando se deitava, 
E os olhos cerrava. 
Mas sorria. Só sorria.



terça-feira, 20 de agosto de 2013

"Por mais que os pontos estejam incisivos, as vírgulas desafogantes e a entonação perfeita, fala como alguém que quer demonstrar algo, não como quem o sente. Talvez porque se realmente o sentisse, nada precisaria ser dito."

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"Sabe o que é mais gostoso do que um abraço?
Esse simples pesar do meu corpo contra o teu.
Sem carícias, sem afagos, só meu corpo pesando sobre o teu,
enquanto esvazio de uma forma sutil e quase desapercebida
o ar dos teus pulmões, inúteis por sinal, quando o que respiras sou eu,
não oxigênio. Só meu corpo pesando contra o teu
e deixando a gravidade unir o que já não sabe mais ficar separado."

Choque térmico

"Talvez eu tenha a conhecido em algum canto
 Jogada em alguma esquina
 Ou em alguma mesa de bar.
 Desiludida, desamparada, perdida,
 Nadando em seu próprio rio salgado
 Sem fôlego, nem ar
 Sem motivos pra dizer sim
 E sem forças pra dizer não.
 Se ela precisar de mim algum dia
 Talvez eu lhe estenda as mãos novamente
 E os pés, as pernas, o corpo todo
 Se não for eu quem vai salvá-la,
 Então que me afunde junto com ela
 Pra onde quer que seja.
 Junto com seus olhos lindos, porém frios
 Que em nada se parecem com seus lábios,
 Quentes e carnudos. Um choque térmico de tesão.
 Ela me fita com desejo, me come com os olhos
 E me beija com desprezo.
 Um desprezo nojento e ao mesmo tempo delicioso
 Ela oscila entre o muito e o pouco,
 Entre o tudo e o nada
 Entre o me bate, me chupa e o me larga.
 Seria enlouquecedor se não fosse tão gostoso
 Se não fosse tão intenso
 Se não fosse tão ela."




No fundo da xícara

      Precisava sentir teu cheiro, me cobrir com os véus que teu aroma desenhava no ar. E você sabe, uma mulher, assim como uma boa bebida, se degusta com todos os sentidos, com todos os costumes e (su)posições. Enquanto te sugava, teus olhos, sempre com olheiras, revezavam entre minha boca, minha roupa e meus discos do Frankie vallie. Nunca me enganara sobre eles. Dizia serem antiquados de mais ou cheios de mofo de mais, mas tua sobrancelha esquerda me dizia o contrário, conversávamos sempre. Com teus pés também, sempre inquietos, sempre atrasados. Teus pés : A parte mais apaixonada do teu corpo. Enquanto me batia, me jogava as tralhas na cabeça e me jurava eternidades escondidas atrás de um sol e uma lua, ou de um sopro em teus seios, teus pés permaneciam sem dignidade alguma enroscados aos meus, como quem diz : tá cedo, vai não...
       Tão distantes da razão. Tão distantes da emoção. São só corpo. Mas a mente, mente. E mente antes de ser mente, é corpo. Voltemos a bebida antes que esfrie.
      A minha xícara, como já havia me habituado, sempre tão pouco cheia, tilintava no pires e vezemquando subia até a boca pra voltar do mesmo jeito. Sem beber nada. Nem cheirar. Nem soprar. Só ouvir, aquele tilintar de olhos fechados sentindo a xícara febril esquentar meus dedos. E quando esquentava trocava de mão. E escutava o tilintar. Escutava seu pulmão controlando a respiração. Escutava tuas pálpebras abrindo e fechando, teus cabelos, aqueles da franja e os de trás da nuca suspirando com o toque da minha pele ouriçando tudo por onde passava. E levava então xícara a boca pra te deixar entrar, e descer, confortar e despertar todo o resto.
       E pensava que, para minha desilusão, todo aquele amargo intrigante, que me lançava à realidade, já não estava mais lá. Em lugar algum. E eu te cuspi pra fora, pra longe, pro vento. Com toda aquela doçura remoendo em minha língua, toda aquela falta de você. Ela ainda persistia em te caçar em minha boca, ainda ansiava por você no meio daquele conto-de-fim-de-ano-qualquer.
      Foi quando notei que você continuara como sempre foi: Penetrante, quente. E nem poderia ser diferente. E continuava sim, me despertando. Todo esse açúcar era a minha boca, enjoativa. Causava náuseas. Mas você não, continuava amarga, encorpada, gostosa, e principalmente: Sem açúcar. Perfeita.
      Sua verdadeira essência, seu real gosto nunca esteve nos primeiros goles, na superficialidade. Seu verdadeiro sabor sempre esteve no fundo da xícara.
      E eu com a cara mais lavada do mundo te pedi:
      - Me serve mais uma xícara de você, por favor?



                                                             
                                                               "Tá cedo, vai não..."


Escada rolante

       Você também sabia. Aliás, soube desde quando eu lhe disse. Lembro que pude ver pela sua cara de espanto, pelo modo como seus olhos me engoliram, apesar do descansar sereno e quase indiferente de suas sobrancelhas, que não era exatamente o que esperava ouvir. Mas não obstante, sorriu. E como poderia esquecer?
        Era como se o seu rosto se dividisse entre dia e noite. Luz e trevas. O olhar mais piedoso e o sorriso mais encorajador do mundo. Foi algo parecido com a sensação de quem pisa em uma escada rolante desligada. Eu era a sua escada naquele momento. Você se desequilibrou pra frente, segurou-se no ar e, mesmo assim, mesmo sendo nítido que a saliva na sua boca havia se tornado árida e seu ar rarefeito, continuou em mim. Andando. Já não posso mais dizer se pra cima ou pra baixo.
         E hoje, estamos aqui. Enrolados em lençóis que não são nossos, quebrando promessas que nunca existiram e nos perdendo em sonhos que você sabe, nunca serão realidade. É o que eu imagino que esteja fazendo, enquanto eu te olho dormir: Sonhando. Á pouco tudo era mais fácil, menos consequente. Nos enrolávamos, nos afundando em nosso suor enquanto sua boca alimentava a minha, e meu cheiro te entorpecia. E era tudo mais fácil, ao que parece.
         Estou te olhando dormir sem roupa, enquanto me decido se, mais uma vez, simplesmente vou-me e, confirmo o que você sempre soube: Nunca serei seu. Na verdade de ninguém. Mas menos seu porque você, ao contrário de todos, me ama incondicionalmente. De um amor que me deixa de mãos atadas. Que não tenho como retribuir. Se eu cuspisse em sua cara, me olharia nos olhos e diria : ''Eu te amo!''.
         Ou se fico, e me conformo que talvez, para você, somente me deixar ser amado já seja o suficiente.


     

Quem sou eu?!

      Entra e sobe que a porta tá aberta. So que não vem de mansinho, não. Quero ouvir o seu salto batendo no chão, o seu olho piscando e sua boca me chamando. Pode entrar, trancar e jogar a chave fora. Porque daqui voce só sai quando o dia clarear e o passado for agora. Tira sua roupa, seus problemas, suas angústias e tudo mais que não serve pra nada. Joga eles alí, na lata do lixo. Você, pode se jogar em mim. Na minha cama, no meu sofá, na minha vida. Até transbordar.
       Sorri pra mim, mas só se você quiser. E eu sei que quer, sorriso verdadeiro a gente não só vê, sente. E assim eu te degusto, como uma taça de vinho em um fim de tarde de inverno, a meia luz. E então não é mais minha mão que enrola no seu cabelo, mas sim o caminho inverso. E ela faz dos meus lençois uma cortina de teatro, não aberta, mas sim fechada. Porque atrás das cortinas que as pessoas se revelam. É na cochia que as mascaras caem. É nessa hora que a sua maquiagem fica na sujeira do algodão. E as dores passadas também.
        E ela me pergunta então quem sou eu, E eu te respondo " Faz diferença?" Nomes são palavras. E palavras são dispensáveis quando os corpos se atraem, de um modo indomável, inevitável. Como os lados positivos e negativos de um imã. Como rios que desaguam em um oceano. Como... Eu e você?
"Me deixa sentir tua falta, me faz lembrar do teu cheiro e de quanto eu gosto dele. E depois vens. Sem demora e sem amarras. Sem receios e sem perguntas, só você. Você mesma. Se derrama em mim e me leva a crer que você nunca partiu, nem por um instante. Você havia se escondido dentro de mim... E quem é que consegue enxergar dentro de si mesmo?"

"Louco é quem se contenta
com o a alegria da chegada
e esquece do prazer da partida
Louco é quem se contenta em ver
somente até onde a vista alcança
É quem acredita que amores tem que ser eternos,
quando eles só tem que existir
É quem se aquieta com seu lugar
na fila da linha de produção,
com o pão da padaria
ou com o pastel da feira de domingo
Louco é quem se contenta comigo, com você
É quem se contenta com qualquer outra coisa
que não seja consigo mesmo
Louco é quem se contenta com pouco."



"(...)E lhe deixava a própria cabeça aberta, disposta a novas idéias, novos entendimentos. Que se ramificavam e entrelaçavam-se até se romper. E cada vez que uma nova surgia, deixava a antiga pra trás, e assim suscedia-se. E também perdia-se. Como a quem subia então degraus, num labirinto de escadas, que o deixavam cada vez mais no alto, e cada vez mais longe da realidade."
"Mulheres de atitude e com brilho próprio, que não vivem na sombra de homem nenhum... Cada vez mais difíceis de encontrar, mas cada vez mais fascinantes"
"Eu aprendi que a felicidade plena, eterna, realmente não existe. Aprendi que estamos errados quando achamos que sabemos do que precisamos e mais ainda quando achamos que precisamos do que queremos. Aprendi que um dia tem 24 horas, mas só preciso de um segundo, um momento, pra sorrir nele o dia inteiro. Que posso viajar durante 30 dias, e dois ou três momentos inesquecíveis serão suficientes pra tornar a minha viagem inteira inesquecível. Aprendi que se conhecer 2 ou 3 pessoas realmente importantes, realmente únicas e especiais a minha vida toda terá válido a pena. Eu aprendi que a felicidade plena, eterna, realmente não existe. O que existe são momentos felizes que no fim, acabam compensando todo o resto."
      "Talvez o seu maior sonho fosse poder abrir os braços e voar. Sair correndo, abrir os braços e simplismente voar. Sem direção, sem objetivos planejados, sem destino. Somente se deixar ir pra onde o vento levar... Mas já parou pra pensar como o ser humano é? 
      Muitos têm pássaros de "estimação" e sentem-se no direito de o deixar trancado em uma gaiola, pulando de um lado a outro... só isso, pulando. E lhe tirando o direito de fazer aquilo que nasceu pra fazer: Voar! Unicamente para poder ouvir seu bonito canto... É o nosso velho hábito de extrair das pessoas e das coisas, o que nos convém, extrair o melhor dos outros, o mais bonito, o que nos é útil, o que nos faz bem, SEMPRE em benefício próprio. Não pense que vida é só isso, o mundo é seu . E todo amor que tem nele também. A escolha é sua: Essa gaiola ou a Vida! 
      Talvez você deva fazer igual as aves que são livres fazem. No inverno elas migram em busca do verão, do calor e do tempo bom. Alguns podem entender como covardia. Outros como sobrevivência. Ou talvez seja só uma busca pela felicidade. Seguida pelo encontro dela. Você deveria experimentar."
      "Só tenho preconceito com uma coisa na vida: Com o dinheiro. Não sei porque. Mas ás vezes parece que onde ele chega tira a graça das coisas. Tira a pureza, a sinceridade, a verdade. Parece querer toda a atenção só pra ele, quer ser desejado por todos, amado por todos, querido por todos e quase sempre consegue. Consegue fazer com que muita gente esqueça que já houve épocas em que ele não existiu. Mas por mais difícil que seja acreditar, mesmo sem dinheiro havia exatamente do mesmo jeito a felicidade, as amizades verdadeiras, companheirismo, risadas, amor, bons momentos... Sim, por mais impossível que seja de acreditar isso tudo sempre existiu sem a perseguição ao maldito dinheiro, poder, dinheiro... sei lá dessa merda toda. 
       Só queria te dizer uma coisa, a mim você não engana. A felicidade, a minha pelo menos, se resume em risadas, verdades e momentos. Momentos... os que vem, os que vão e os que ficam."
"Eu nunca tive muita fascinação pela serenidade de vidas paralelas. Eu prefiro vidas que de algum modo, desordeiro ou insensato, terno ou avassalador, cruzam-se com a minha."
      "Algum dia, em algum bar de alguma cidade, um velho bêbado entrou para tomar uma bela dosinha matinal de caipora. Seus hábitos não eram os melhores, bem como suas roupas e sua higiene. Tinha movimentos mansos e um sorriso leve e habitual no rosto, daquela felicidade não-comprada e nada espalhafatosa. Felicidade serena, muito pouco vista. A sua simples caminhada da entrada em direção ao balcão fez-se digna de um espetáculo para o theatro mvnicipal, com ingressos esgotados. As suas pernas dançavam e faziam movimentos desastrosamente coordenados. Se fossem pincéis teriam desenhado no chão ondas semelhantes as da praia de copacabana. Talvez tenha surgido daí a inspiração para o desenho de sua calçada tão famosa, o caminhar de um jovem boêmio. Deslizou, tropicou e caiu sentado. Numa cadeira vazia por sorte. Ajeitou-se. Ao seu lado nas cadeiras do balcão, estava sentado um homem jovem e bem vestido, de palito fino e alinhado, porém a gravata já havia se tornado lenço para o nariz e os primeiros botões estavam desabotoados. Em cima da bancada algumas cervejas, talvez uma meia-dúzia. Todas abertas mas nenhuma completamente vazia. Talvez a vontade de se ver bêbado fosse realmente maior do que a de tomar aquelas cervejas. A sua aparência levava a crer que algo não estava bem. 
      "E aí meu rapaz, você não devia beber tanto sabia?" O velho bêbado levantando uma bandeira contra o alcoolismo. Ironicamente é claro. Talvez ele estivesse mais preocupado com que ele acabasse com todas as cervejas do mundo. "Sai pra lá seu velho cachaceiro, eu não vou lhe pagar bebida alguma!" "Ei, ei, calma lá. Você acha que é isso que eu quero? Garçom, faz favor. Marque essa cachaça que lhe pedi e todas as cervejas desse rapaz em minha conta. E o que mais ele puder beber!" Falou levantando parcialmente o traseiro da cadeira, porém ainda segurando no encosto com um dos braços e olhando para o infinito, com ares de quem proclamava a independência dos bêbados sem dinheiro mas com dignidade. Com certeza não foi convincente para o garçom, que tinha plena noção de sua pé-rapadisse. Mas foi o suficiente para fazer o rapaz se arrepender do que havia dito. "Não, que isso, Me desculpa. Ignore. É que estou com alguns problemas. Posso te pagar uma bebida?" "O que é isso digo eu. Eu jamais aceitaria." Uma pequena pausa. "Porém percebo que é um homem de classe, e que ficaria extremamente sentido se não aceitasse. Não quero que pense que me falta educação. Então, que seja!" Perder uma oportunidade? Jamais. Enquanto o garçom o servia tratou de ir puxando assunto. 
      "Mas diga-me rapaz, porque toda essa foça?" Perguntou, enquanto cheirava e degustava sua pinga como se fosse o mais puro vinho italiano. "E porque mais seria? Estou sofrendo por amor." E olhou para o nosso bêbado ancião, como que esperando o sinal verde para começar a desabafar. Que não veio. Ele preferiu virar sua cachaça de uma vez só. Antes que fosse tarde demais. O rapaz então decidiu insistir no assunto. Talvez encontrara alguém para sofrer junto sua dor. "E você senhor, porque bebe tanto? Também sofre por amor?" O nosso velho então respirou tranquilamente e mergulhou em uma serenidade que fez o rapaz pensar que ele havia tomado uma dose de glicose, e não de cachaça. "Meu rapaz bebo pra esquecer dos problemas da vida, talvez. Mas nunca do amor. Dele quero me lembrar a cada instante." O rapaz retrucou. "Pra o senhor deve ser fácil. Mas eu não consigo viver sem ela!" Falou o rapaz imaginando ter encontrado os ouvidos que precisava "Você não consegue viver sem ela, mas ela pelo jeito consegue viver sem você. Você quer nada além do que lhe é conveniente, lhe faz bem. Assim como um carro luxuoso te trás conforto ou um cobertor quente lhe esquenta os pés. Você deveria ser preso por chamar isso de amor. O amor nao é o que pensa. O amor é auto suficiente e alimenta-se por si só. Basta que exista. E é muito diferente dessa sua carência que vaga por aí como um cachorro faminto atrás de uma presa pra descarregar essa sua necessidade de depositar suas frustrações em outra pessoa. Por favor, cresça e vire homem seu pivete" O rapaz então ficou cego de raiva. Tomar lição de moral de um desconhecido, até aceitaria. Mas de um desconhecido, velho, bêbado e mal-cheiroso era mais do que ele podia aguentar. "O senhor deve estar louco pra falar assim comigo!" Esbravejou levantando-se da cadeira imponentemente. "Talvez eu seja mesmo. E quando você perceber que o mundo que vivemos é um completo manicômio, talvez também se torne um!" E também levantou. Na segunda tentativa, mas levantou-se, e bateu fortemente com uma moeda que tirara do bolso da camisa, sua filha única, no balcão. Por um momento ficou com receio de tomar uma bordoada, mas manteve seu peito de tombo estufado por alguns segundos e virou-se em direção a saída. O rapaz ficou frustrado por não ter achado palavras e sentou-se novamente. Seguido por um suspiro aliviado do nosso velho. Sua retirada fez-se com pressa afinal em nome do seu orgulho sua última moeda havia sido gasta, e alí se dava início a uma nova saga, uma nova epopéia: A conquista de mais uma moeda! Afinal, logo seria a hora da caipora do almoço. 
      O velho bêbado todo orgulhoso pela vitória no combate moral saiu, e rumou em direção ao horizonte com seu trançar de pernas característico, movimentos mansos e sorriso leve e habitual e desapareceu. O jovem rapaz continuou ali, pediu mais uma cerveja e praguejou com o garçom. "É um velho louco, Demente" Talvez ele bem lá no fundo não tivesse achado isso. Mas ele tinha seu orgulho próprio e jamais admitiria isso.
      "Ele vinha andando pelo meio-fio. De cabecinha baixa, camisa degolada e os chinelos presos nas mãos, sem algum motivo aparente. O tempo era nublado e garoava. Nuvens cinzas, ventos cinzas e chuva cinza. Ele sequer demonstrava frio, mas deveria. O seu olhar perdido no vazio, os braços abertos buscando equilíbrio e o rostinho magro com olhos fundos e piscantes. Só uma criança, aparentemente. Uma criança que mora com a mãe. E mais sete irmãos. Mas isso não o incomoda. Dividir o mingau de fubá nunca foi problema pra ele. Muito menos o revezamento de quem calçaria o sapato. O problema está justamente no outro morador da casa. Seu padastro. Não, não é uma criança, é um gigante. Um herói. É muito fácil encarar o mundo quando já se tem alguma noção desse cenário de dementes em que fomos enviados sem nosso consentimento. Quando já lhe foi ensinado que tudo vai passar, que há luz no fundo túnel. Mas e quando a luz do fim do túnel é a de um trem? E quando quem devia te proteger te abusa? Te confunde, te desmorona. Uma pequena montanha, mas uma grande queda. Só uma criança. Mas ele continua ali, firme. Andando no meio-fio, sem desiquilibrar. Nem pra um lado nem pro outro. É o orgulho da mãe. As vezes condizente com o que não devia, mas será que ela pode ser culpada? Será que ela pode ser errada? Mas ele, ele é só uma criança. Não um morador de rua, não um animal, não um rato. Uma criança frágil e indefesa. Em algum lugar dentro de si com certeza ela ainda é. 
      O farol ainda está fechado, meu carro ainda está parado e ela se aproxima com alguns papéis na mão. Eu já podia prever o texto. Mas jamais acertaria. Sua mãozinha pequena me entregou o papel com uma timidez quase que forçada. Quando li o papel entendi o motivo : "Vende-se sorriso. O meu está na promoção 50 centavos". ... Entendi não só o motivo da timidez forçada como o porque da promoção. Fazia parte do plano, da estratégia, me surpreender com sua mais poderosa arma. O sorriso. Era o mais banguela, brilhante e estridente sorriso que já havia visto. E me contaminou. sorri sem perceber. Que criatividade. Passei a mão próximo do câmbio pra buscar umas moedas e então tive um estalo, e me questionei. O que estou fazendo? É o que eu tenho a oferecer? Umas porcarias de moedas? Não. Com certeza não são dessas porcarias que ele precisa. Talvez eu devesse descer, comprar algum brinquedo e brincar com ele o resto dia. Talvez ensiná-lo a soltar pipa. A ler, escrever. Eu poderia o levar na sorveteria, que criança não adora tomar sorvete no frio? Quem sabe ensiná-lo a jogar bola, lhe dar o mínimo de atenção. Fazê-lo sentir-se uma pessoa não uma bicho, uma atração circense. Talvez ele só precise de um cafuné, um abraço. Se sentir amado, confiante. Mas ao invés disso eu lhe dei minhas moedas nojentas. Todas elas. Fechei o vidro e saí. Como quem nada fez e ainda sentiu-se útil por isso. Ele me olhou indo embora. Guardou os papéis em um bolso. As moedas no outro. E continuou seu caminho. Ele, só uma criança, andando no meio-fio...

Estação realidade

      "Abre-se as porteiras e alinha-se o gado. Gados marcados, chanfrados cada um com seu valor. Não muito alto, mas talvez alguns juntos sejam necessários pra comprar o pão. Ou um iate. Se não pagar o bilhete não anda. Se pagar boa sorte. O preço não importa. Compre e fique quieto antes que aumente. Um eterno vai-vem, um labirinto com milhares de sonhos, vontades, pensamentos e desejos perdidos, não realizados, não vividos. Contidos em corpos, pessoas, gente. Que alugam suas vidas por tão pouco, enquanto outros ainda nem se deram conta que as tem. 
      Parece unânime a cada alma que por ali passa, sufocada pela materialidade, pela ilusão de realidade de uma peça de tabuleiro, de uma marionete de linhas visíveis, a vontade de jogar tudo pro alto e mandar todo mundo tomar no cu. Mas por favor, não. É mais cômodo assim. Menos arriscado, menos doloroso. Menos mais. Ai que medo eu tenho de viver. 
      Bom, é chegada sua hora de descer. Estação: Realidade. A minha não, sua. Que fique claro. Estação: Sociedade. Pra você um bom dia, bom trabalho, boa tortura, boa vida vazia, boa perda de tempo. Eu contínuo aqui, até o ponto final, ou um pouco mais. Talvez chegando ao meu destino faça mais uma escala. Pegue um disco voador pra puta que paril ou uma carona de carroça pra casa do meu amor. Não descarto nenhum destino, mas confesso preferir o segundo. Levo uma rosa ou um riso? Acho que vou levar os dois. Ou talvez leve só a rosa. Meu sorriso já vai estar lá me esperando."







"Tem gente que viaja o tempo todo, mas sempre sabe onde está. Tem gente que nunca saiu do lugar e mesmo assim, até hoje, continua perdido."
"Você é uma pessoa muito doce pra guardar essa lágrima tão salgada dentro de você."
"Viver de sonho é profissão de vagabundo!" E assim, mais uma vez, enganaram mais um garoto, mais uma garota que o que trás felicidade é viver correndo atrás de dinheiro..."
"Amadurecimento é o perfeito equilíbrio entre razão e emoção"
"Corajoso não é aquele que tem a aitude de contestar os atos de um superior. Não é aquele que rema contra a maré visando seus ideias ou até mesmo aqueles que nunca se abatem diante das adversidades. Coragem, de fato, pode se atribuir ao homem que assume a autoria de um peido em meio a multidão"
      "Vamos, Molenga! Vem logo" Gritava um menino de aparentemente dez anos de idade, com sua bermuda curta e suas canelas finas de fora, ainda lisas, sem quaisquer indícios de pelos. O cabelo era castanho, nem claro nem escuro, mal penteado. Ou talvez, penteado como deveria.Cabelos servem para ser bonitos ou confortáveis? Gritava para seu amigo : "Vem seu mole anda!". Eram melhores amigos. Ou seriam. Ainda alí não sabiam disso. Seu amigo era pouca coisa mais velho, não chegava a um ano de diferença. Mais velho e mais rechonchudo também. Suas bochechas eram lustrosas. Se ao invés de dois furos, o seu nariz tivesse três, seria seu rosto uma perfeita bola de boliche. O que não o impediu de ter esse apelido. "Corre bola de boliche, vamos nos atrasar!" Essa pressa toda era pra ir ao cinema. A Estréia de " xxxxxxxxxx". A continuação do filme, que deixava as crianças alucinadas. E a presença garantida do ator principal na bilheteria fez os mais jovens enlouquecerem. "O canelinha, para de gritar a gente já chegou". Chegaram. No fim da fila. Enorme, duas voltas no quarteirão. "Vixe, será que agente vai conseguir entrar?" "Não sei, se você tivesse andado logo talvez! Bolinha!" Começou a frase indignado, porém terminou com um sorriso no rosto, dando leves tapinhas na barriga rechonchuda do Bola de boliche. "ah ah ah. Será que essa também é a fila da pipoca?" Propositalmente, irritando o amigo. O jeito era esperar, não havia o que ser feito. Ao lado deles havia uma loja grande, recém inaugurada. 
       Causou um certa estranheza em nossos meninos por até então, não ter sido notada. A faixada repleta de LEDS azuis, com cartazes chamativos, produtos a mostra, é uma promessa quase que irresistível para crianças de dez anos:"Compre o que quiser sem precisar de dinheiro!" Será possível? Decidiram entrar, por que não? O filme já estava perdido mesmo. A loja, apesar de enorme, estava relativamente cheia, diversos vendedores ocupados com um, dois, até com seis clientes ao mesmo tempo. Nas prateleiras diversos produtos. Televisões Full HD,Video-games, Bicicletas, Eletrodomésticos, até mesmo carros, motos.Todos de última geração, das melhores marcas, as mais desejadas.Os meninos passeavam pela loja embasbacados, com o olhar perdido.Sonhador. "Ter tudo isso sem precisar gastar nossa mesada?"Estranhamente um vendedor abandonou alguns de seus clientes, já homens mais velhos, que o indagavam fervorosamente, e dirigiu-se apequena dupla de crianças. "Boa tarde, pequenos. Precisam de ajuda?" O vendedor magro, alto, de bigode. De pele firme,aparentava seu rosto ser uma máscara. Barba perfeita, não se via um vestígio de acne, pelos, ou o que quer que seja. "Olha, senhor,estamos dando uma olhada só..." Disse o mais rechonchudo. Mais tímido, mais recatado. "Olhando não, senhor. Queremos levar,não precisa de dinheiro, né?" Disse o da canela fina, mais atirado, depois de passar a frente do seu amigo. Nesse momento os homens a quem o vendedor atendia, indignados, por terem sido postos de lado pelo vendedor para dar atenção a meninos, saíram da loja pronunciando injúrias. O vendedor os ignorou completamente. Eles já não tinham mais o que realmente interessava ao vendedor.
       "Sim,exatamente. Não precisa gastar um centavo, é nosso modelo revolucionário. Já escolheram o que querem levar? Vamos escolham!"Apesar de certo temor que era nítido no rosto do bolinha de boliche,o sorriso extasiado no rosto de seu amigo era tão forte quanto um holofote. "Acho melhor não... Canelinha vamos embora, vamos perder o filme!" disse o puxando pelo braço. Não sabia o que o incomodava. Não sabia o que o metia medo. Mas o sentia. "Filme? Para de ser bobo gordinho, eu só saio daqui com o meu video-game novo!" Disse isso desdenhando da opinião do seu amigo, fazendo um gesto com as mãos de cima pra baixo, como quem dá tapas em pernilongos. E saiu seguindo o vendedor, ainda ludibriado pelas tantas cores que brilhavam na loja. Bolinha não o seguiu.Sentiu vontade, mas não o fez. Não queria deixar o amigo sozinho, enaquele momento mal se importava com o filme, ou com a pipoca. Mas o rosto daquele homem o fez sentir medo. E não se recriminou por isso,era uma criança. Viu seu amigo caminhar com o vendedor para o fundo da loja, o setor dos video-games e, percebendo que ele não voltaria,foi embora. De cabeça baixa. 
      Canelinha dirigindo-se ao fundo da loja com o vendedor, percebeu que a loja era maior do que parecia, talvez o dobro, o triplo. E pessoas não paravam de entrar. "Está aí menino, o setor de video-games, escolha o seu predileto!" Pow!Foi o tiro de largada, saiu em disparada. Escolhia um, e depois trocava. E quando já decidido, voltava a querer o primeiro. Quando por fim escolheu, XXXXXX, com a saga completa do jogo e controle de pistola. Quanto orgulho de sí próprio sentia. Era só um video-game, mas sentia que ali começava a ser independente,sentia-se adulto. "Acho que já posso começar a conseguir minhas coisas sozinho" Pensava. Caminhou até o vendedor de peito estufado e o informou: "É esse", entregando-lhe a caixa. "Pois bem, que seja esse. Enquanto mando embrulhar, vou lhe falar sobre aforma de pagamento." O menino estalou os olhos. "Tem que pagar?" "Calma, com dinheiro não. Esse video-game vai lhe custar apenas 200 horas." O menino não entendeu nada. E nem precisou dizer, sua cara falava por si só. "Calma menino, vou lhe explicar. Sabe aqueles momentos em que não está se fazendo nada? Quando se chega em casa, se está de bobeira?" O menino assentiu com a cabeça. "Então é disso que precisamos, você não irá nem sentir falta. Já imaginou como ele lhe sairía caro na loja?" O menino era só dúvidas, mas assentiu com a cabeça denovo. "Olha aqui, chegou o seu video-game embrulhadinho. É seu, só preciso que assine aqui." "Tá bom..."Segurou o papel, pensou. "Posso escrever só o nome?'' Perguntou receoso. "Pode sim, garoto" E olhava atentamente esperando que o menino o fizesse. E ele o fez. O vendedor então o acompanhou até a saída e se despediu. "Volte Sempre" "Obrigado senhor, mas não sei acho que não devo voltar" As duas mãos seguravam o pacote embrulhado. Por baixo. "Vai sim meu querido,cuide-se." E voltou para dentro da loja. 
       Canelinha saiu com seu video-game novo. Apesar da afobação e entusiasmo inicial, ele não sabia mais exatamente o que lhes ocorreu, mas não o estava sentindo.E foi embora, pra casa. E quer saber? Canelinha voltou alí muitas outras vezes. Sobre as primeiras duzentas horas que devia a loja pelo seu video-game, as pagou rigorosamente. Não tinha que ir até aloja, ou depositar em algum banco nacional de relógios, ou cronômetros. Ele não percebia exatamente quando, nem como, mas sentia que as estava pagando. Primeiro quando perdeu sua amizade com bolinha de boliche,na infância, eles foram parando de se ver, de se encontrar, de brincar na rua, jogar bolinha de gude, empinar pipa, amarelinha,pega-pega, polícia e ladrão. Isso tudo, só não aconteceu. Afinal suas horas, ou grande parte delas, já o não pertenciam. Havia uma dívida, e elas somente sumiam, sem que ele notasse quando, ou como. Mais tarde, alguns anos após, Canelinha "comprou" uma lambreta. Três mil horas.Roupas, televisores, computadores, mais video-games. Devido isso, não passou dias dando risada com bolão (seria o apelido que daria a bolinha de boliche, caso continuassem amigos. Afinal o menino crescera muito), não jogaram bola juntos até as pernas não aguentarem mais, não fizeram guerras de bexigas d'água, não viraram a noite toda conversando sobre a primeira paixão da escola,não pularam o muro do vizinho pra pegar a bola. Não se viram sentados na rua, sem absolutamente nada pra fazer, sem nem um centavo no bolso, mas de algum jeito, confortavelmente felizes por terem um ao outro. Por serem melhores amigos.Tudo isso não existiu. Afinal, uma dívida tinha que ser paga, vocês já sabem. 
      Recentemente, Paulo Lins de Souza, o Canelinha, agora já com seus trinta anos, voltou a loja misteriosa e retirou seu veículo. Seu sonho de consumo. Última geração,esportivo, conversível e amarelo. Preço? 1.000.000 de horas.... Por incrível que pareça, o mesmo vendedor ainda trabalhava lá. Sua pele ainda perfeitamente lisa. O vendedor sabia desde aquele dia, a tanto tempo atrás, que seria um cliente em potencial. Paulo Lins Retirou seu veículo e saiu. Súbito, lembrou-se que a anos não ia ao cinema... Percebeu que, talvez, não iria nunca mais. "Quer dizer, quem sabe depois de pagar as horas que devo devido o carro...Quem sabe."
"Fui dar um rolê em um parque na hora do almoço, procurei uma grama bem confortável e deitei pra dar aquela pensada na vida e relaxar. Alguns segundos depois me chega um guardinha ofegante de bicicleta: "Ei senhor, senhor! Não pode deitar" Perguntei: "Ahh ta, não pode deitar aqui... nesse lugar?" "Na verdade não pode deitar em lugar nenhum dentro desse parque, só sentar... deitar é proibido!" Até pensei em perguntar o porque, mas desisti. Levantei e caí fora. Proibido... Deveria ser proibido eu ouvir uma babaquisse dessa."
"Restart está para o rock como cone crew está para o rap como the walking dead está para as séries como aba reta está para a moda como naldo está para água de coco como academia está para o verão como a carpa está para a tatuagem como o absurda está para os óculos como como a falta de conteúdo está para o ser humano = modinha"
      "Eu estou sentado com minha bunda gorda no assento do metrô neste exato momento. Lugar esse que tive que disputar bravamente com um maldito velho preguiçoso de noventa e cinco anos e com um ceguinho descarado. Se não sou eu fingir que estava dormindo será que eles iam me encarar até eu levantar? E como pode um cego encarar? Safado! Querendo dar o golpe pra sentar! Mas pra cima de mim não, quando você tomava mamadeira eu já saía no tapa pra poder sentar no bondinho! 
      Ah, eu odeio esse povo folgado! Pô já foi difícil conseguir esse lugarzinho peitando quem tentava descer no terminal ao invés de deixar o povo descer primeiro. Eu penso que a gente tem que ter direitos iguais, eu tenho muitos rivais querendo esse meu banquinho não posso bobear, não ia largar o osso assim tão fácil! Bom pessoal eu vou indo nessa que vai chegar a minha estação, mas é óbvio que ao invés de levantar um pouco antes e ficar na porta eu vou esperar a porta abrir pra então sair empurrando e esbarrando em todo mundo, afinal um milésimo a mais em pé é muito tempo... Amanhã a gente se vê de novo no metrô pessoal, beijos. ASS: gorda preguiçosa do metrô, obs: Não tem como fugir, ela é onipresente."
"De que importa toda sua inteligência, sua cultura e soberba, se quando alguém fala você não para pra escutar?"
      "Homens que se propõem a passar frio, fome, medo e falta de ar, escalando montanhas gigantescas e geladas durante dias, semanas até meses. Muitas vezes perdem amigos durante essas jornadas, alimentam-se mal, perdem peso, perdem tempo. (Tempo não, horas). Tudo isso com o constante pensamento de que tudo pode dar errado a qualquer momento... Aí eu te faço uma pergunta, a troco de quê? É uma ótima pergunta... 
      Para alguns é praticamente impossível entender que, nem sempre, o troféu é o que importa, o prêmio, ou o desejo tão almejado que te faça cair em sua zona de conforto. Para alguns, na maioria das vezes, o que realmente importa é a conquista, ou o modo como foi conquistado. O caminho, o trajeto, o percurso. As dúvidas, os receios, os anseios, e finalmente as certezas. No final, que seja. Aquele frio na barriga que nos alerta sobre o risco, mas que ao mesmo tempo atiça nosso brio, dando pista de como saboroso pode ser escalar mais um objetivo. E se mais uma montanha for escalada? E se no topo houver sol, houver céu azul, houver tudo? E se não houver nada? Só gelo, frio e vazio?              Não faz diferença. Existem outras montanhas a serem escaladas. Outros caminhos a serem percorridos, outros aprendizados, novos medos a serem enfrentados, novas conquistas. As escaladas sim nos ensinam. E antes de se acomodar no topo da sua montanha, pare pra pensar que ás vezes o finalmente. Ás vezes o finalengana. Ás vezes ainda não é o final. E ninguém aqui está falando de alpinistas, montanhas ou gelo. Isso é a vida."
       "Deitado em seu canto, que incluía não muito mais do que um papelão, um cobertor e um cachorro fedido. Em um estado de semi consciência, semi plenitude, semi ele mesmo. Pensamentos desvariam-se. Longe do aconchego da sensação de pertencer a si mesmo. Sem lapso temporal entre ser e estar. Porém sem fuga, sem medo. Até que ele sente-se imóvel. Imobilizado pela coragem inconsequente de experimentar o desconhecido. Sua saliva congela em sua boca, os músculos de sua barriga se contraem. O barulho de sua respiração, contida involuntariamente, só não é mais desesperada do que o chacoalhar fíbrilo do seu coração. Sua boca treme compulsiva e assustadoramente. A cada esvaziar de seu peito a idéia assustadora de que ele não seria expandido pelos seus pulmões novamente o assombra, e causa medo. Mas seus olhos fechados enxergavam mais do que a mais tenaz das águias. E em um segundo tudo isso desaparece. Sem mais exemplos e explicações. Tudo. E ele sente cada poro, cada veia, cada vácuo, ser preenchido por si mesmo. Sente-se completo. E então, finalmente adormece."