No fundo, tudo são apenas memórias. São só luzes esvoaçadas e desfiguradas, sendo guiadas descontroladamente por uma estrada sem fim. Exatamente como as que vejo agora. De um lado vermelhas, do outro brancas. Umas correm alucinadamente, as outras também. E vão como quem tem pressa de saber aonde vão, afinal. Começa uma leve garoa e eu percebo as pessoas a minha volta se escondendo. Em guardachuvas, em coberturas, comércios, orelhões. Elas correm com medo de se molhar ou, talvez, da chuva em si. Decido continuar andando. Na verdade, eu nem percebo os primeiros pingos, as primeiras gotas escorridas na minha cara, no meu pescoço, e vou simplesmente andando.
Entro então naquela rua de ipês amarelos, que em época de primavera forram o chão. Pra minha surpresa é primavera, e a chuva, já mais forte e pesada, vai desenhando naquele tapete dourado, os levando embora de mim. Com seus filetes de água, com seus caminhos tortuosos e eu vou pisando por cima delas, com minha bota encharcada e vendo as borbulhas de ar que saem na lateral dos meus pés enquanto as sinto massageando os meus calcanhares. A minha roupa, já tão ensopada, me faz pensar por um minuto, que talvez eu devesse me esconder, não por medo de estar molhado, porque pra isso já seria tarde, mas porque talvez eu ainda tivesse algum medo da chuva. Porém percebo que estou na sua rua, ao ver aquele seu portão tão velho e aquele seu muro baixo por onde o carteiro jogava as suas correspondências, e sigo caminhando até ele. Você está lá me esperando, te cumprimento e te beijo por cima do portão, e você me convida pra entrar. É o que eu faço.
Sento-me em seu sofá, derretendo e pingando, talvez o estragando, por ser de camurça e roxo, digo isso mais pela camurça do que pela cor. Sinto-me mal por isso, mas você diz que tudo bem, me pergunta se quero roupas secas. Claro que não, eu não as quero, gosto das minhas roupas assim e assim permaneço. Você me serve um pouco de chá quente, algumas coisas pra comer, mas eu não tenho fome. E em pouco tempo estamos em sua cama, abraçados. Você feliz enrolada no meu corpo gelado e úmido, e eu tão pensativo abraçado no teu corpo quente e aconchegante. Eu deveria ter tirado as minhas roupas, mas achei melhor não. Tiro apenas as minhas botas. E continuamos deitados, até eu perceber que você não está bem com isso, com esse abraço molhado, com esse bota pingando em seu tapete, com o seu sofá roxo de camurça estragado. Não era o que você me mostrava, nem o que sua boca dizia, mas era assim. Achei também que você merecia algo melhor, alguém que não tivesse cheiro de cachorro molhado. Não necessariamente alguém que cheirasse otimamente bem, mas que pelo menos não cheirasse mal, ou que ao menos cheirasse a sabão em pó. Mas sempre dizia que gostava assim, e que tudo bem. Mas isso não é tudo bem. Decido me levantar e ir embora, deixando aquela poça em sua cama. Pego minhas botas, ainda com água, as calço e saio novamente. Não espero nem que abra o portão, apenas ergo um pouco os fundos das calças e passo por cima daquilo que você chamava de muro. Quando na frente do seu portão, encontro o carteiro que, a me ver ali, entrega-me as suas correspondências. Digo que não moro ali, as devolvo e desapareço.
No caminho de volta, passando novamente pela rua de ipês amarelos, eu sinto que, talvez, possa realmente existir pessoas que gostam de pessoas que tenham as roupas molhadas pela chuva. Talvez não propriamente pela roupa, mas porque enquanto tantas outras estavam embaixo dos orelhões, das coberturas, havia alguém que estava ali andando, em meio aquelas luzes vermelhas e brancas que vem e que vão. Não se importando em não ter as roupas cheirando otimamente bem, nem do peso que elas ficariam ou como colam no corpo e na espinha, as congelando. Sinto que talvez eu pudesse voltar e te cumprimentar por cima daquele muro baixo já tão destruído, e poderíamos entrar e tomar uma taça de vinho enquanto eu aceitaria as suas roupas quentes e confortáveis, e deitaríamos, e teríamos um abraço confortante, seco e quente para ambos os braços e corpos. Também poderia aguardar na frente do seu portão até aquele carteiro voltar, e quando me entregasse as suas correspondências, eu não diria nada, somente voltaria pra dentro, depois de arrumar um pouco aquele quadro que fica na sua porta com uma simetria impecável. Mas antes que eu pudesse pensar nessa possibilidade com alguma consideração, sinto tudo isso, ou só isso, se desfigurando e se esvoaçando, e antes que pudesse ou quisesse impedir, tudo se perde sendo conduzido pra uma direção qualquer, como aquelas luzes brancas e vermelhas que não sabem pra onde vão. Como aquelas flores douradas sem destino algum, guiadas pela chuva... E decido simplesmente continuar caminhando.
Na verdade, caminhar sempre foi o meu melhor jeito de me encontrar. E eu preciso estar sozinho agora. Essa solidão é como uma estaca procrastinada cravada em meu peito. Causa dor, sufoca e martiriza, mas no fundo eu sei que faz parte de mim. Por vezes eu penso em arrancá-la e atirá-la para longe, sem me importar se atingiria alguém ou não, mas a verdade é que tentar tirá-la poderia ser um erro porque sem ela, talvez, eu não sobrevivesse. Durante a minha caminhada, lembrando mais uma vez daquele seu portão tão velho e mal cuidado decido, mesmo sem olhar pra trás, que um dia, num futuro não muito distante, ainda volto. A chuva já está cessando, talvez volte com minhas roupas já secas ou, melhor ainda, talvez eu até as lave com sabão em pó, quem sabe.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Crua, nua, sua.
Faça que sou a taça e me transborda
Pense que sou o vinho e me degusta
Me inventa, me descobre, me assusta
Me chama de puta, de linda, de sua
Me joga na mesa, derruba esses pratos
E me coma crua
Ou então não me coma,
Me traga, me engula nua
Diz não ligar pra o que eu digo
E me faça mudar de opinião
Enquanto me beija o umbigo
E me faz trocar dez vezes
Entre o sim e o não
Só não me deixe pensar
Ser só essa mulher
Que você diz amar
Quando chega à noite da rua
E que diz a todos,
Mesmo sem o bem que um querer exige,
Ser sua
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