quarta-feira, 21 de maio de 2014

Meia taça

O nosso amor 
talvez tenha muito mais sentir,
do que sentido

Talvez seja
um gemido engasgado
que encontrou um ouvido atento
Uma minha língua faminta
que percorreu um corpo
suplicante por um toque 

mais profundo

E só assim pode sentir o coração
Bater mais forte

Quando o seu 
solavancou prensado
contra o meu...
Era amor?

Eu queria te penetrar,
atravessar,
Como quem transborda
O que já não cabe em um corpo

Porém você mesma
ainda não havia se tocado,
tido consciência de si.

E esperava, apenas,
Que eu a consumisse

Sem perceber que uma mulher,

assim como uma taça,
ao ser consumida
Fica vazia

As taças de vinho

As mulheres, de vida

E o que é vazio,
incompleto,
mata apenas meia sede,
Sacia apenas meio desejo 

Dá vida a apenas

Meios amores

Aqueles,
de meia taça.




quinta-feira, 8 de maio de 2014

Cúmplices

Seus olhos sorriem pra mim
E os meus dão risada
ao te ver chegar 
Sua boca me diz que não, 
seu corpo me seduz e 
ao mesmo tempo me confunde
Mas seus olhos, 
Ahh seus olhos... 
Meus eternos cúmplices. 
Esses sim 
nunca me enganaram
Nem sequer tentaram. 
Me dão muitas certezas 
e apenas uma dúvida: 
Como podem ser tão pequenos 
e guardar uma imensidão?



terça-feira, 6 de maio de 2014

Homem ao mar

     De nada adianta buscar o chão quando a sua cabeça gira em torno do eixo de uma corrente de água. De uma onda forte e incontrolável, mas sem rumo. Os pés firmemente fincados no chão de nada servem quando as águas estão revoltas. 
     Por aquele milésimo de segundo a mísera sensação de segurança que você tem são os seus pés forçosamente querendo agarrar-se ao chão. Mas o chão é de areia e sem que nada possa ser feito você sente aqueles pequeno, minúsculos grãos de mundo se esvaindo por entre os vãos do seus dedos. É isso que o nosso chão representa: O nosso mundo. A areia vai se dissolver por entre os seus dedos levando embora seu chão, fazer ele bater na sua nuca e pedir passagem. Seguir seu próprio rumo. Mas sempre há tempo suficiente pra seguir as bolhas, guiar-se à superfície e encher os pulmões. Deixá-los plenos de ar.
     Enquanto aquelas ondas bravas me engoliam, pra depois me regurgitar, fazendo meu corpo rolar, fazendo-me dançar conforme a música, eu percebia que um homem, do mar nada pode esperar além de que seja ele mesmo. Incontrolável, intenso, imenso, inesperado.
     E quando um oceano se torna intenso demais, aparentemente invencível diante da sua limitada ideia de ego, ele te cospe. E você fica ali, de batimentos acelerados, boca salivante, porém com sede devido a água salgada do mar, com o corpo exausto, estirado em frente a um poderoso oceano, cabendo apenas admirá-lo. Isso não é uma derrota. Isso não é perder, porque não há competição.
     A verdade é que, nessa hora, de nada servem os galões de oxigênio, os barcos, os botes salva vidas. De nada servem suas conquistas, suas vitórias, seus pesares, seus porquês. De nada adiantas deslizar sobre o mar, de nada adianta fugir, porque quando as águas do mar estão revoltas é preciso que você mergulhe e as enfrente.
     Apenas elas tem o poder de transformar meninos em homens. E nesse momento já não cabe mais esperar nada em troca. Não cabem ressentimentos, lamúrias, indecisões. Nesse instante um homem é todo ação. Fechado pra si e aberto ao mundo, é vazio de ego e abundante em amor. É livre pra ser o momento.
     É um homem ao mar, e nada mais.