terça-feira, 19 de agosto de 2014

A maravilhosa loja (Canelinha e Bola de Boliche)

     






     - Vamos, Molenga! Vem logo! 
     Gritava um menino de aparentemente dez anos de idade, com sua bermuda curta e suas canelas finas de fora, ainda lisas, sem quaisquer indícios de pelos. O cabelo era castanho, nem claro nem escuro, mal penteado. Ou talvez, penteado como deveria. Cabelos servem para ser bonitos ou confortáveis? Gritava para seu amigo : 
     - Vem seu mole anda!
     Eram melhores amigos. Ou seriam. Ainda alí não sabiam disso. Seu amigo era pouca coisa mais velho, não chegava a um ano de diferença. Mais velho e mais rechonchudo também. Suas bochechas eram lustrosas. Se ao invés de dois furos, o seu nariz tivesse três, seria seu rosto uma perfeita bola de boliche. Mas não foi a falta de um furo que o impediu de ter esse apelido. 
     - Corre bola de boliche, vamos nos atrasar! 
     Essa pressa toda era pra ir ao cinema. A Estréia de " Aventuras galácticas 2 - A Jornada sem volta". A continuação do filme que deixava as crianças da época alucinadas. E a presença garantida do ator principal na bilheteria fez os mais jovens enlouquecerem. 
     - O canelinha, para de gritar a gente já chegou. 
     Chegaram. No fim da fila. Enorme. Duas voltas no quarteirão. 
     - Vixe, será que agente vai conseguir entrar? 
     - Não sei, se você tivesse andado logo talvez! Bolinha! 
     Começou a frase indignado, porém terminou com um sorriso no rosto, dando leves tapinhas na barriga rechonchuda do Bola de boliche.
     - Ah ah ah. Será que essa também é a fila da pipoca? 
     Disse bolinha, propositalmente, irritando o amigo. O jeito era esperar, não havia o que ser feito. Ao lado deles havia uma loja grande, recém inaugurada. Causou um certa estranheza em nossos meninos por até então, não ter sido notada. A faixada repleta de LEDS azuis, com cartazes chamativos, produtos a mostra, e uma promessa quase que irresistível para crianças de dez anos: "Compre o que quiser sem precisar de dinheiro!". Será possível? Decidiram entrar, por que não? O filme já estava perdido mesmo. 
     A loja, apesar de enorme, estava relativamente cheia, diversos vendedores ocupados com um, dois, até com seis clientes ao mesmo tempo. Nas prateleiras e nos corredores diversos produtos. Televisões Full HD, video-games, bicicletas, eletrodomésticos, até mesmo carros, motos.Todos de última geração, das melhores marcas, as mais desejadas.Os meninos passeavam pela loja embasbacados, com o olhar perdido.Sonhador. 
     - Ter tudo isso sem precisar gastar nossa mesada? 
     Disse canelinha com os olhos brilhando. Estranhamente um vendedor abandonou alguns de seus clientes, já homens mais velhos, que o indagavam fervorosamente, e dirigiu-se a pequena dupla de crianças. 
     - Boa tarde, pequenos. Precisam de ajuda? 
     O vendedor magro, alto, de bigode. De pele firme,aparentava seu rosto ser uma máscara. Barba perfeita, não se via um vestígio de acne, pelos, ou o que quer que seja. 
     - Olha, senhor, estamos dando uma olhada só... 
     Disse o mais rechonchudo. Mais tímido, mais recatado. 
     - Olhando não, senhor. Queremos levar, não precisa de dinheiro, né?
     Disse o da perna fina, mais atirado, depois de passar a frente do seu amigo. Nesse momento os homens a quem o vendedor atendia, indignados, por terem sido postos de lado pelo vendedor para dar atenção a meninos, saíram da loja pronunciando injúrias. O vendedor os ignorou completamente. Eles já não tinham mais o que realmente interessava ao vendedor. 
     - Sim, exatamente. Não precisa gastar um centavo, é nosso modelo revolucionário. Já escolheram o que querem levar? Vamos escolham!
     Apesar de certo temor que era nítido no rosto do bolinha de boliche, o sorriso extasiado no rosto de seu amigo era tão forte quanto um holofote. 
     - Acho melhor não... Canelinha vamos embora, vamos perder o filme! 
     Disse o gordinho, puxando o amigo pelo braço. Não sabia o que o incomodava. Não sabia o que o metia medo. Mas o sentia. 
     - Filme? Para de ser bobo gordinho, eu só saio daqui com o meu video-game novo!
     Disse isso desdenhando da opinião do seu amigo, fazendo um gesto com as mãos de cima pra baixo, como quem dá tapas em pernilongos. E saiu seguindo o vendedor, ainda ludibriado pelas tantas cores que brilhavam na loja. Bolinha não o seguiu. Sentiu vontade, mas não o fez. Não queria deixar o amigo sozinho, e naquele momento mal se importava com o filme, ou com a pipoca. Mas o rosto daquele homem o fez sentir medo. E não se recriminou por isso, era uma criança. Viu seu amigo caminhar com o vendedor para o fundo da loja, o setor dos video-games e, percebendo que ele não voltaria, foi embora. De cabeça baixa. 
     Canelinha dirigindo-se ao fundo da loja com o vendedor, percebeu que a loja era maior do que parecia, talvez o dobro, o triplo. E pessoas não paravam de entrar. 
     - Está aí menino, o setor de video-games, escolha o seu predileto!
     Pow! Foi o tiro de largada, saiu em disparada. Escolhia um, e depois trocava. E quando já decidido, voltava a querer o primeiro. Quando por fim escolheu, Master Game 3000, com a saga completa do jogo " Aventuras Galácticas" e controle de pistola. Quanto orgulho de si próprio sentia. Era só um video-game, mas sentia que ali começava a ser independente, sentia-se adulto. 
     - Acho que já posso começar a conseguir minhas coisas sozinho. Pensava. 
     Caminhou até o vendedor de peito estufado e o informou: 
     -É esse! Entregando-lhe a caixa. 
     - Pois bem, que seja esse. Enquanto mando embrulhar, vou lhe falar sobre a forma de pagamento.
     O menino estalou os olhos. 
     - Tem que pagar? 
     - Calma, com dinheiro não. Esse video-game vai lhe custar apenas 200 horas de vida. 
     O menino não entendeu nada. E nem precisou dizer, sua cara falava por si só. 
     - Calma menino, vou lhe explicar. Sabe aqueles momentos em que não se está fazendo nada? Quando se chega em casa, se está de bobeira? 
     O menino assentiu com a cabeça. 
     - Então é disso que precisamos, você não irá nem sentir falta. Já imaginou como ele lhe sairia caro na loja?
     O menino era só dúvidas, mas assentiu com a cabeça de novo. 
     - Olha aqui, chegou o seu video-game embrulhadinho. É seu, só preciso que assine aqui.
     - Tá bom...
     Segurou o papel, pensou. 
     - Posso escrever só o nome?
     Perguntou receoso. 
     - Pode sim, garoto. 
     E olhava atentamente esperando que o menino o fizesse. E ele o fez. O vendedor então o acompanhou até a saída e se despediu. 
     - Volte Sempre!
     - Obrigado senhor, mas não sei, acho que não devo voltar. 
     As duas mãos seguravam o pacote embrulhado. Por baixo. 
     - Vai sim meu querido, cuide-se. 
     E voltou para dentro da loja. Canelinha saiu com seu video-game novo. Apesar da afobação e entusiasmo inicial, ele não sabia mais exatamente o que lhes ocorreu, mas não mais os sentia. E foi embora, pra casa. E quer saber? Canelinha voltou ali muitas outras vezes. Sobre as primeiras duzentas horas que devia a loja pelo seu video-game, as pagou rigorosamente. Não tinha que ir até aloja, ou depositar em algum banco nacional de relógios, ou cronômetros. Ele não percebia exatamente quando, nem como, mas sentia que as estava pagando. Primeiro quando perdeu sua amizade com bolinha de boliche. Na infância, eles foram parando de se ver, de se encontrar, de brincar na rua, jogar bolinha de gude, empinar pipa, amarelinha, pega-pega, polícia e ladrão. Isso tudo, só não aconteceu. Afinal suas horas, ou grande parte delas, já não o pertenciam. Havia uma dívida, e elas somente sumiam, sem que ele notasse quando, ou como. 
     Mais tarde, alguns anos após, Canelinha "comprou" uma lambreta. Três mil horas. Roupas, televisores, computadores, mais video-games. Devido isso, não passou dias dando risada com bolão (seria o apelido que daria a bolinha de boliche, caso continuassem amigos, afinal, o menino crescera muito), não jogaram bola juntos até as pernas não aguentarem mais, não fizeram guerras de bexigas d'água, não viraram a noite toda conversando sobre a primeira paixão da escola, não pularam o muro do vizinho pra pegar a bola. Não se viram sentados na rua, sem absolutamente nada pra fazer, sem nem um centavo no bolso, mas de algum jeito, confortavelmente felizes por terem um ao outro, por serem melhores amigos.Tudo isso não existiu. Afinal, uma dívida tinha que ser paga, vocês já sabem.
     Recentemente, Paulo Lins de Souza, o Canelinha, agora já com seus trinta anos, voltou a loja misteriosa e retirou seu veículo. Seu sonho de consumo. Última geração, motor esportivo, bancos de couro, artigos de luxo e amarelo, com uma faixa no meio. Preço? 1.000.000 de horas.... Por incrível que pareça, o mesmo vendedor ainda trabalhava lá. Sua pele ainda perfeitamente lisa. O vendedor sabia desde aquele dia, há tanto tempo atrás, que seria um cliente em potencial. Paulo Lins Retirou seu veículo e saiu. Passando em frente ao cinema próximo a loja, ainda em atividade, recordou-se daquele dia: " Aventuras Galácticas". Súbito, lembrou-se que há anos também não ia ao cinema... Percebeu que, talvez, não iria nunca mais. 
     - Quer dizer, quem sabe depois de pagar as horas que devo devido o carro...Quem sabe.




     

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

olhar

Enquanto os homens, de forma desinteressada e quase que mecânica, questionam-se sobre o que querem as mulheres, seguido pela covarde constatação de essa ser uma pergunta sem resposta, ao lado de outros já conhecidos questionamentos de semelhante fim (qual o sentido da vida?), elas, por sua vez, parecem já saber exatamente o que os homens querem, e se encontram entediadas pela falta de mistério e de olhares. Não mistério de conto infantil, mas o de um simples e confiante "não saber" que permeia a imaginação, porque é lá onde o universo feminino acontece. Um "não saber" que arrasta pela mão e as coloque na garupa sem dizer pra onde vai. Não de um olhar limitado, previsível, aprisionante, mas de um olhar quase neutro, de caçador. Que não capture imagens estáticas e preguiçosas (elas são assim, elas são assado), que chega sem pedir licença. Que reinventa a cada novo foco. Olhar fixo e vazio, onde é possível sentir-se dentro. Onde seja possível, até mesmo, viver.



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

ruína

Hoje,
não quero sentir a superficialidade
da tua pele, nem o perfume
que nela carrega.

Não quero a tinta que a maquia,
nem a roupa que a esconde.
Hoje,
quero tua carne, na minha.

Poder tragar o fedor
do teu canto mais obscuro,
bater em tua face mais sórdida
e me tatuar com as marcas
das tuas garras felinas.

Adentrar,
feito cazuza,
pelas portas escancaradas
de tuas feridas.

Quero tua saliva,
teu cuspe misturado ao meu,
teu suor salgando a minha língua
quero essa porra toda,
hoje.

Quero tuas lágrimas em minha roupa,
tuas sobras em minha boca
e te quero sem voz,
te quero rouca.

Quero teus problemas banais,
casuais
e existenciais.

Lamber teu amargo,
brindar tuas dores,
em teu olhar poder sentir maldade,
e desarmá-la.

Do teu movimento desordenado
fazer inércia,
e desaguá-la.

Hoje, quero todo
o seu lixo,
toda sua podridão.

Quero
toda a sua ruína,
em mim.