Você devia ter me ouvido. Em algum momento, pelo menos. Não a Freud, Gandhi, Jesus, seus pais ou quem quer que fosse. Sabe aquela lógica sem nenhum bom senso que martelava no fundo da sua alma e que muitas vezes só você entendia? E às vezes nem você conseguia. Aquela que de olhos fechados parecia clara, nítida e revigorante como um pulmão cheio de ar? Era eu.
Mas você sempre tentava explicar a sua lógica com a dos outros. Tentava desenhar trilhas em florestas já devastadas ou falar o seu idioma por bocas alheias. Pegava tudo o que sentia e tentava novamente filtrar em outras pessoas. Sua mãe, sua vó, o zé do bar. Era como se um pedregulho tentasse passar em uma peneira. Então, eu lembro do seu rosto, era desesperado, era covardemente inocente, e você tentava buscar modos de exteriorizar o que sentia, mas nada funcionava. E no meio dessa covardia tímida, já esperada, eu buscava mas não via a coragem necessária. E via cada vez mais, menos você, menos eu, em nós. E via nossos desejos, nossas escolhas caminhando não com as nossas roupas, mas com as roupas dos outros. Lembro que eles chamavam isso de "estar na moda".
O tempo passou e hoje, você se sente desesperadamente aliviado por poder, falsamente, depositar essa sua incapacidade de se sustentar com as próprias pernas em outras pessoas. Elas se tornaram suas muletas. "Não faço por meus filhos" "Se não fosse aquilo..." "Se não fosse fulano...". É o típico chihuahua que, seguro pela corrente, parti pra cima de um pitbull. Poe a culpa na corrente mas implora pra que seu dono não o solte, para que a corrente não estoure. "Ahh mas se estourasse você ia ver"... E todos aqueles "se" que você cultivou, acabaram se tornando um belo encosto pros braço, pros pés, pro pescoço. Pro corpo todo. E você agradece por estar tão acomodado neles, afinal porque reclamaria de algo tão macio e confortável?
Até que um dia você vai acordar de madrugada com seu próprio ronco, vai olhar pro lado e ver sua mulher, aquela com a qual você se casou porque a engravidou e que o sexo já é pior que uma punheta há tempos. Vai levantar, mijar, cagar, lavar o rosto. E quando se olhar no espelho, vai ver apenas uma parede. Exatamente aquela que está às suas costas. Não vai ver seus olhos cansados, sua boca, seu pescoço, sua testa franzida. Nada.
E então vindo de algum lugar, talvez por de baixo da porta, ou pela fresta do vitrô, você vai sentir uma leve brisa gelada e contornante devaneiando calmamente até chegar aos seus ouvidos, percorrendo o caminho por toda a sua espinha, causando um arrepio seco e paralisante. Você, como já era de se esperar, vai covardemente tentar fugir pra um lugar seguro, mas eu não vou deixar que mova um fio de cabelo, e vou te fazer me enfrentar, como você nunca fez. E, mais uma vez, você vai olhar naquele espelho sem se ver. Quem vai estar nele agora sou eu, e eu te perguntarei olhando no fundo dos seus olhos: O que você fez comigo?
" Me desculpe, mas isso aí na minha frente não sou eu"

Pesado ....
ResponderExcluirbem pesado!
Olha só, o primeiro comentário no blog, quanta emoção! Rs
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