Por aquele milésimo de segundo a mísera sensação de segurança que você tem são os seus pés forçosamente querendo agarrar-se ao chão. Mas o chão é de areia e sem que nada possa ser feito você sente aqueles pequeno, minúsculos grãos de mundo se esvaindo por entre os vãos do seus dedos. É isso que o nosso chão representa: O nosso mundo. A areia vai se dissolver por entre os seus dedos levando embora seu chão, fazer ele bater na sua nuca e pedir passagem. Seguir seu próprio rumo. Mas sempre há tempo suficiente pra seguir as bolhas, guiar-se à superfície e encher os pulmões. Deixá-los plenos de ar.
Enquanto aquelas ondas bravas me engoliam, pra depois me regurgitar, fazendo meu corpo rolar, fazendo-me dançar conforme a música, eu percebia que um homem, do mar nada pode esperar além de que seja ele mesmo. Incontrolável, intenso, imenso, inesperado.
E quando um oceano se torna intenso demais, aparentemente invencível diante da sua limitada ideia de ego, ele te cospe. E você fica ali, de batimentos acelerados, boca salivante, porém com sede devido a água salgada do mar, com o corpo exausto, estirado em frente a um poderoso oceano, cabendo apenas admirá-lo. Isso não é uma derrota. Isso não é perder, porque não há competição.
A verdade é que, nessa hora, de nada servem os galões de oxigênio, os barcos, os botes salva vidas. De nada servem suas conquistas, suas vitórias, seus pesares, seus porquês. De nada adiantas deslizar sobre o mar, de nada adianta fugir, porque quando as águas do mar estão revoltas é preciso que você mergulhe e as enfrente.
Apenas elas tem o poder de transformar meninos em homens. E nesse momento já não cabe mais esperar nada em troca. Não cabem ressentimentos, lamúrias, indecisões. Nesse instante um homem é todo ação. Fechado pra si e aberto ao mundo, é vazio de ego e abundante em amor. É livre pra ser o momento.
É um homem ao mar, e nada mais.

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