O parque parecia lugar perfeito. Pessoas felizes, correndo com seus pequenos cães e colhendo os bons frutos de uma vida mais integrada à natureza e não tão sedentária, sentou-se. Anuviou. Tentou observar as crianças brincando no playground, os pássaros ciscando migalhas no chão, sem sucesso. Tentou até olhar as mulheres fazendo exercícios com suas calça de yoga tão agarradas, praticamente inexistentes. Anuviou mais ainda.
Talvez esse lance de parque não tenha sido uma boa ideia. Decidiu levantar-se e ir comer algo, um churros talvez e saiu andando novamente. Desanuviou. Não, não foi o churros. Mas Simão percebeu que encarava melhor a vida quando caminhava. O grifo não estava mais lá, o rosto era leve e as sobrancelhas já não pesavam mais.
Chegou em frente ao serviço, já cinco minutos atrasado da pausa para o almoço. Nem hesitou, seguiu em frente, passou direto caminhando. E quer saber de uma coisa, pensou Simão, "Não vou parar nunca mais!". E assim Simão cumpriu rigorosamente aquela promessa feita naquela meio nublada meio ensolarada quarta feira à tarde, e nunca mais parou de caminhar.
Simão conheceu 190 países ao redor do planeta. Alguns deles três vezes, outros seis. Mas por descuido ou desleixo esqueceu de um bem pequenininho chamado "Tuvalu". Fica ali meio escondido perto do longe e longe de lugar algum. Paísinho bobo, quase sem graça. Mas dizem que, às vezes, quando é fim de tarde, o sol bate em um escultura de gesso que há em uma pracinha na periferia e desenha no chão a imagem de um cavalo cavalgando sobre um homem. É preciso um pouco de imaginação pra ver, isso é verdade, mas dizem que está lá. Dizem também que nessa mesma praça há um cachorro vira-lata que luta com a própria sombra, e que os bebuns param todos para ver e apostar. Até hoje, pelo que me disseram, está 11X2 para a sombra. Mas Simão nunca viu isso.
Simão experimentou pratos gastronômicos de todo o planeta. Desde o autêntico salsichão alemão aos insetos fritos na Tailândia. Degustou dos mais sofisticados vinhos italianos a uma estranha bebida feita em Bangladesh com água do mar. Detalhe: Em Bangladesh não há mar. Mas nosso incansável caminhante não contava que deixaria passar Dona Berê e seus bolinhos de chuva acompanhados com suco de groselha. Discuti-se até hoje que o tempero especial de Dona Berê e seus quitutes eram suas mãos digamos, não totalmente higienizadas. Na verdade sua falta de higiene era senso comum em quem os provava, mas o sabor valia a pena. E a groselha era tão doce, tão rosa. Sempre caía na camisa. Mas Simão não os experimentou, nem se sujou.
Simão conheceu quase todas as mulheres, conheceu suas bocas: Carnudas (só nos lábios de cima, só nos lábios de baixo e nos lábios de cima e de baixo), magras, desenhadas, retas, sensíveis, gulosas, botocadas. Conheceu suas fantasias, seus dramas e horrores, conheceu seus cotovelos, suas saboneteiras, suas panturrilhas, suas tosses, seus choros engasgados, seus choros de corrente, enfim. Aprofundou-se. Nisso Simão foi quase perfeito. Pois é, tem o "quase" antes do "perfeito", e eu que escrevo sobre Simão de bom grado e não fui remunerado, não poderia retirar esse quase daí, e nem que fosse tiraria. Simão foi quase, porque não teve o prazer de conhecer Sofia. Doce Sofia.
Ela tinha aquele jeito gostoso de deitar na ponta da cama deixando a cabeça pendurada e o pescoço à mostra quando a gente ia no banheiro. Era assim, a gente ia só no banheiro, e quando voltava estava ela ali, deitada de cabeça pendurada e mostrando como consegue ser ainda mais linda de ponta cabeça. E tinha seus ombros tão delicados, dava aquela vontade louca e sem freios de abraçá-la sem deixa-lá também abraçar a gente, deixando-a com os braços presos à frente do próprio corpo, sabe? E sempre antes de você pensar em dizer algo, ela te olhava com cara de menina e pedia um beijo no queixo, ali mesmo de ponta cabeça. Essa parte é a mais inexplicável de Sofia e é a responsável pelo sufixo "doce" em seu nome. Mas Simão não a conheceu. Aliás, para Simão, Doce Sofia, é apenas Sofia. Pobre, pobre, pobre Simão. Pobre eu digo não de dinheiro, mas de doçura da Sofia.
Simão deu no total seis voltas ao mundo completas, conheceu 190 países (todos, exceto aquele perto de nada, já citado), dobrou inúmeras esquinas, ouviu infinitos badalos de sinos de igreja e experimentou 214 sabores de sorvete. Mas não pode sequer apostar na sombra. Quem sabe até apostasse no cão, gostava de ser azarão. Não provou os bolinhos de chuva quase higiênicos de Dona Berê, não sujou a camisa com seu suco de groselha. Não conheceu Sofia, tão doce.
Simão, caminhou tanto, tanto, que viveu em vão. Caminhou tanto que viveu, da vida, no vão.





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