quarta-feira, 24 de junho de 2015

Côncavo ou convexo? (felinos)


     Todos dizem sempre a mesma coisa sobre os gatos, sempre. São antipáticos, prepotentes, independentes. Eles tem seres humanos, e não o contrário. Que são interesseiros, não gostam de carinho e desfilam para cima e para baixo com aquele ar de "não tô nem aí pra você". É, as pessoas dizem. Quem já teve gatos sabe que isso não é bem verdade, pelo menos não todo o tempo.
     A noite anterior deixou suas marcas, tirou ares do pulmão que ainda não trouxe de volta. Cada dia me apaixono mais por uma parte diferente do seu corpo. Ando encantado com suas saboneteiras, aparentes. As descobri recentemente enquanto tirava suavemente a alça do seu soutien. Meus dedos resvalaram nelas e resolvi acompanhá-las, primeiro com as mãos, depois com a língua. Eu desenhava um arco convexo acompanhando o desenho de suas saboneteiras e um convexo brotava também nos seus lábios. Pra dizer a verdade sempre confundi isso concavo e convexo. Se alguém souber, por favor, cale-se. Não importa agora. O fato é que já é manhã, posterior a uma paradoxal noite bem/mal dormida. E como que em um lapso, eu entendo os gatos. Assim, quase sem sentido.
     É como se os cachorros não ficassem à vontade o suficiente ao nosso lado quanto os felinos. Como se o mundo deles não existisse sem nós. Mas os gatos, esses sim ficam à vontade o suficiente para, em alguns momentos, ignorarem a nossa presença. Mas basta se levantar e ir para outro cômodo e ele irá atrás. Eles querem viver sua vida, lamber-se para depois vomitar seus pêlos por alguns momentos sem se importar se vamos ou não lhes dar carinho, mas mesmo assim nos querem por perto.
     Absorto pelo barulho da minha máquina, batendo no papel enquanto estou sentado diante de minha escrivaninha, te vejo entrando pela porta da sala. Vejo-te desfilando só de calcinha por trás da fumaça que sobe da minha xícara de café e se deitando no sofá. Continuo escrevendo, mas não sem antes me levantar e beijar sua boca acarinhando levemente seu rosto minhas duas faces. Não quero ficar distante. Não quero ficar grudado, não agora. Mas me sinto à vontade o suficiente para ter você em meu mundo também, no breve momento em que ele se passa atrás da fumaça que sobe da xícara de café que levo à boca, nas letras que faço nascer no papel em branco. Quero um universo só nosso, mas quero também, dentro do meu próprio universo, poder olhar pro lado vezenquando e ver que está ali, confortavelmente serena com a minha presença, e vice-versa. Eu entendo os felinos.


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