- Boa tarde senhor, essa daqui é a fila pra negociação de breve prorrogação de vida?
- Depende, o seu motivo pra voltar... qual é?
- Bom eu tenho um projeto onde abrigo crianças abandonadas, são cerca de 300 crianças. Nós os acolhemos das ruas, lhes damos abrigo, alimentação, estudo, enfim, lhes damos a vida que eles não tiveram a oportunidade de ter. Porém um pouco antes de morrer eu recebi um cheque de um senhor inglês caridoso que pouco antes de voltar para seu país se interessou muito pelo meu projeto, e fez uma doação muito generosa. Mas só poderia ir ao banco no dia seguinte, então guardei o cheque dentro de um compartimento secreto embaixo da última gaveta da minha cômoda. À noite quando fui ao mercado comprar pão com a minha mobilete... bom o senhor já deve imaginar o que aconteceu. Se não voltar para pelo menos depositá-lo, essas crianças vão ficar desamparadas porque a casa está para ir à falência.
Uma chance a menos. pensei. Que azar o meu, devo ter morrido justamente no dia que caiu algum meteoro eu um encontro na casa dos Hope. Confesso, baixinho aqui entre nós, que pensei em dizer que não era essa a fila. Mas trezentas crianças...
- É essa daqui a fila sim.
- Obrigado. Mas e o senhor, porque precisa voltar?
- Eu? É que deixei Galileu sem ração suficiente.
- Galileu?
- Sim, meu gato.
Eu jamais diria a ele sobre Catarina. Não por medo de parecer bobo não, pelo contrário, se mostro a ele a foto e conto como ela tinha um sorriso de iluminar quarteirão e que precisava voltar para dizer, pela última vez, que a amava, ele fazia abaixo assinado ali mesmo. Mas aí ele ia ver a foto e acabar se apaixonando por Catarina, tenho certeza. Aí usaria esse papinho de bom moço das 300 crianças e voltaria para vê-la! Sou velho mas não sou bobo.
- Senhor Adonias, senha 451.
Porque será que a minha cabeça tá coçando tanto? Eu tomei banho anti ontem...
- Senhor Adonias, senha 451!
E aqui, será que a gente tem que tomar banho também?
- Ei, senhor!
Me cutucou uma mocinha, jovem jovem. Tinha o cabelo todo colorido.
- Alí, no caixa vazio.
- Eu vi mocinha, mas a gente tem que esperar chamar né, e...
- Senhor Adonias, senha 451!!
- Olha aí, agora sim.
Jovens, sempre ansiosos. Vivem com pressa, morrem pressa. Sentei-me em frente ao atendente.
- Pois não senhor Adonias, em que posso ajudá-lo?
- Boa tarde meu jovem...
Apertou os olhos pra tentar enxergar. O olho, na verdade. Só o direito funcionava. O esquerdo mal servia pra cair cisco.
- Saulo.
- É Paulo senhor Adonias.
- Pois bem Saulo, se eu só disser você não acredita, então vou te mostrar uma foto, mas promete que não vai olhar muito nem se apaixonar?
- Me apaixonar? Prometo sim, Seu Adonias.
- E eu acredito em você, Saulo. Lindo nome, é o mesmo nome do meu sobrinho sabia? Nossa, mas ele era levado. A gente tinha que correr atrás dele na casa inteira pra poder dar banho. Você também não gostava de tomar banho?
- Não, Seu Adonias. Eu gostava de tomar banho. Me desculpa apressá-lo, mas é que a fila está grande, preciso que me mostre logo a foto e explique o motivo.
- Como você sabe da foto? Ah sim, sim, eu te disse. Mas preciso que prometa, Saulo, você não vai se apaixonar nem colocar pro computador aí minha foto?
- Não seu Adonias, não vou.
- Tá bom.
Adonias levantou-se, fuçou o bolso direito, puxou do bolso três cartelas da mega-sena e um lenço: Bolso errado. Do direito sacou a carteira. Atrás de onde se guarda as notas puxou uma foto, antiga. Em preto e branco.
- Olha aí, menino. Que coisinha bonita. Tá vendo esse lenço aí na cabeça dela? Fui eu que dei. Você consegue perceber que o rosto dela tá mais iluminado do que o resto da foto? Eu vou te contar uma coisa, quando eu chegava cansada só esse sorriso me deixava novinho em folha. Dava vontade de dançar assim ó.
Levantou e tirou a bengala pra dançar. Ensaiou até alguns giros, balançou o corpo e sorriu. Pra quem visse de longe, ou de costas, era nítido que estava dançando tango, ou bolero. Ou qualquer coisa.
- Tudo bem, Seu Adonias, é uma linda foto, com todo o respeito, mas...
- Espere Saulo. Eu sei que vocês tem algumas prioridades, mas eu preciso explicar melhor para que entenda bem. Catarina é daquele tipo de mulher que mesmo quando se despede deixa no ar aquele gosto, aquele som quase inaudível de um suave acorde de violão, que ecoa e vai abaixando devagarinho e muitas vezes, mesmo depois de minutos, anos ou décadas, ainda pode ser ouvido no fundo dos tímpanos, ainda pode ser sentido no ápice de um suspiro. Eu só preciso voltar e a tirar pra dançar pela última vez.
- Eu entendo seu Adonias. Porém aqui são abertas apenas raras exceções. Eu posso conversar com a gerente, mas não lhe garanto nada.
- Isso, faz isso Carlo. Olha tem um rapaz que tenho certeza que vão deixar ele voltar e ele tem uma lambretinha. Disse que posso ir e voltar com ele na garupa. Prometo que volto com ele, assim fica mais fácil e...
- Tudo bem Seu Adonias, um minuto.
Carlo é um anjo. Não digo isso pela auréola ou pelas asas não, mas tenho certeza que vai me liberar. Talvez eu diga a Catarina o quanto a amo, e depois de comermos um lanche de mortadela dancemos um pouco.
- Babyyyyy.... Do you wanna dance?
E já estava em pé de novo dançando com a bengala
Enquanto isso Paulo apresentava o caso a sua gerente, que olhando pela janela pedia a Paulo que a mostrasse quem era Adonias.
- Aquele senhor, dançando com a bengala.
Disse Saulo, digo Paulo.
Alguns instantes depois a própria gerente decidiu ir dar o resultado do caso para o senhor Adonias.
- Boa tarde, Senhor Adonias?
Ainda dançava.
- Pois não, senhorita.
-Vejo que tem bastante disposição. Belos passos, sou obrigada a admitir. É um prazer, sou a gerente. É Jhonny Rivers que estava cantando?
- Sim, era como Catarina me chamava, o seu Jhonny Rivers.
- Sabe que até parece um pouco? Ele já passou por aqui
- Que honra. Mas então minha jovem diga-me, está autorizada a minha breve volta? O Carlo te disse sobre a lambreta também?
- Disse sim Seu Adonias, disse. Porém é com tristeza que devo lhe dizer que mesmo assim não poderemos autorizar que volte. Mas, devido o encantamento e a sinceridade com que o senhor transborda quando fala de sua mulher lhe abrirei uma exceção. Poderá enviá-la um bilhete. Só isso poderei fazer pelo senhor.
- Entendi. Sabe, tem muita gente aí na fila que precisa mais do que eu mesmo, O rapaz da lambreta mesmo, merece e como. Não tinha me oferecido a carona como lhe disse, mas tenho certeza que não negaria. Pois bem, tem papel e caneta?
- Tenho sim, aqui está. Leve o tempo que precisar.
Seu Adonias sentou-se mais ao lado durante alguns breves minutos e escreveu, quase sem pausa, exceto pelas duas vezes que nem percebeu o término do papel e escreveu uma letra ou duas na mesa. Levantou-se e entregou o papel à gerente
- Está aqui minha jovem. Para que não se confunda eu vou mostrar mais uma vez. Pra você não tem problema.
Sacou da carteira mais uma vez a foto de Catarina e a mostrou.
- Está certo, Seu Adonias. Agora enxerguei bem, não vamos nos enganar.
- Muitíssimo obrigado pela atenção. Qual o seu nome minha jovem?
- Iris, Senhor Adonias.
- Obrigado Liris. Agradecido.
Colocou o chapéu, passou a mão na bengala e se retirou. Na saída, quando passava pelo rapaz da lambreta lhe deu dois tapinhas costas e saiu pela porta por onde entrou.
- Que senhor simpático não é Iris? - Disse Paulo
- Sim, tem uma alma de criança
Um pouquinho distante dali, Catarina entrava em sua residência. Totalmente vestida de preto, e seu sorriso já não iluminava mais um quarteirão. A perca de seu marido ainda era recente e na verdade, nunca deixaria de ser. Ainda era cortante não poder vê-lo sentado na sala, não poder sentir suas mãos tão inquietas e reconfortantes mandando pra longe os problemas da vida. Não sabia da onde ainda tirava forças para viver.
Na mesa da cozinha, ao entrar, percebeu um bilhete. Estranhou porque era exatamente onde seu marido gostava de deixar recados. Às vezes escrevia:
"Compra Mortadela pra quando eu chegar?"
Outras vezes:
" Neste exato momento estou correndo o risco de ser demitido. Porque estou lembrando de como amo o seu sorriso ao invés de estar trabalhando. Se eu for demitido viveria comigo a base de pão e água? Viveria? Obs: Compre mortadela. Te amo."
Lembra disso, apesar de doloroso, era delicioso.
- Isso deve ser algum folheto esquecido - Pensou. Foi até a mesa e o leu, dizia:
- Dó, reconheço, tenho de mim mesmo por não ter lhe falado todos os dias o quanto eu te amei, e ainda amo. Mas é só lembrar dos teus olhos vivos e alegres, soltos ao meu redor, ou de como se encantava por pequenas coisas, que entendo que ainda não te deixei, e nem vou. Porque você é essa canção da qual eu nunca me canso de cantarolar por aí. Nos dias de alegria, pra me sentir ainda mais feliz. Nos dias mais amenos, confusos, para me revigorar e nunca te deixar fugir. Dó, de mim mesmo, eu não mais sinto, porque levo aonde for a sua melodia gostosa comigo.
Do seu Jhonny Rivers"
- Do you, do you, do you, do you wanna dance, Baby... do you wanna dance?

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