quarta-feira, 2 de julho de 2014

Selva de pedra

     Mais um dia cansativo e é chegada a hora de ir pra casa. Me despeço e saio em direção ao metrô, a pé. A noite não é quente nem fria, mas derrama um leve sereno, que se parar pra pensar é quase invisível aos olhos mais desatentos, só pode ser visto contra as luzes do poste, que os dá um leve tom de laranja mercúrio. A rua está vazia, sigo caminhando calmamente como se esquecesse já estar atrasado para alguma coisa, não me lembro exatamente o que é, mas sempre estou. Quando a desatenção se dissolve um pouco e decido parar de me concentrar nas cores em que uma luz pode tingir o sereno, levanto a cabeça e a vejo.
     E era exuberante. Na verdade era de uma beleza introspectiva, como se fosse um segredo baixinho contado ao pé do ouvido ou uma visita daquelas que está a explodir mas não tem coragem pra levantar e e ir ao banheiro. Resumindo: Era discreta. Poderia até falar do seu cabelo curto e bem cortado, que ia descendo e acompanhando o formato do seu rosto, do seu delicado cachecol enrolado ao pescoço, do seu caminhar leve e calculado ou até mesmo da sua cintura sutilmente marcada pela blusinha por debaixo da jaqueta, mas seria perda de tempo. Ela era linda por ser discreta.
     Nos cruzamos e após uma curta troca de olhares seguimos pelo mesmo caminho, por uma rua despovoada e quase muda. Ia ela caminhando na minha frente e eu atrás, admirando como era delicada. Já era noite e me ocorreu que toda essa sua suposta discrição talvez se devesse àquela situação, ao lugar. Decidi apertar um pouco e passo e puxar assunto, ou talvez cumprimentá-la. Quem sabe um sorriso e perguntar se queria companhia até o metrô. Ela com certeza percebeu que eu acelerava a marcha e também se adiantou. 

     A verdade é que foi horrível. Sentir aquele medo, aquele desespero vindo daquela mulher, sentindo que ela fugia de mim quando no mais o que eu tinha oferecer era um sorriso e algumas piadas descompromissadas. Se as cidades grandes são as selvas de pedra, naquele momento eu me senti como uma hiena urbana das ruas desertas e solitárias.
     Pensei em cumprimentá-la, oferecer companhia até o metrô, mas achei melhor não. Simplesmente a ultrapassei como se ela nem existisse e continuei minha caminhada. Nem muito rápida nem muito lenta, afinal eu não podia acelerar muito e deixá-la pra trás, sozinha, em meio àquele moderno vale escuro. Caminhamos assim até o metrô, e foi nítido perceber o alívio com que aquela mulher tão linda e discreta, completou e venceu mais aquela batalha diária. 

     Eu não descobri sequer o seu nome, mas fiquei feliz de, pelo menos naquele momento, dar exatamente o que ela precisava: Um pouquinho da minha indiferença à "fêmea" e um pouquinho de compaixão à mulher. Porque eu sou um homem, não uma hiena.




Nenhum comentário:

Postar um comentário