"Abre-se as porteiras e alinha-se o gado. Gados marcados, chanfrados cada um com seu valor. Não muito alto, mas talvez alguns juntos sejam necessários pra comprar o pão. Ou um iate. Se não pagar o bilhete não anda. Se pagar boa sorte. O preço não importa. Compre e fique quieto antes que aumente. Um eterno vai-vem, um labirinto com milhares de sonhos, vontades, pensamentos e desejos perdidos, não realizados, não vividos. Contidos em corpos, pessoas, gente. Que alugam suas vidas por tão pouco, enquanto outros ainda nem se deram conta que as tem.
Parece unânime a cada alma que por ali passa, sufocada pela materialidade, pela ilusão de realidade de uma peça de tabuleiro, de uma marionete de linhas visíveis, a vontade de jogar tudo pro alto e mandar todo mundo tomar no cu. Mas por favor, não. É mais cômodo assim. Menos arriscado, menos doloroso. Menos mais. Ai que medo eu tenho de viver.
Bom, é chegada sua hora de descer. Estação: Realidade. A minha não, sua. Que fique claro. Estação: Sociedade. Pra você um bom dia, bom trabalho, boa tortura, boa vida vazia, boa perda de tempo. Eu contínuo aqui, até o ponto final, ou um pouco mais. Talvez chegando ao meu destino faça mais uma escala. Pegue um disco voador pra puta que paril ou uma carona de carroça pra casa do meu amor. Não descarto nenhum destino, mas confesso preferir o segundo. Levo uma rosa ou um riso? Acho que vou levar os dois. Ou talvez leve só a rosa. Meu sorriso já vai estar lá me esperando."

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