quinta-feira, 15 de agosto de 2013

      "Algum dia, em algum bar de alguma cidade, um velho bêbado entrou para tomar uma bela dosinha matinal de caipora. Seus hábitos não eram os melhores, bem como suas roupas e sua higiene. Tinha movimentos mansos e um sorriso leve e habitual no rosto, daquela felicidade não-comprada e nada espalhafatosa. Felicidade serena, muito pouco vista. A sua simples caminhada da entrada em direção ao balcão fez-se digna de um espetáculo para o theatro mvnicipal, com ingressos esgotados. As suas pernas dançavam e faziam movimentos desastrosamente coordenados. Se fossem pincéis teriam desenhado no chão ondas semelhantes as da praia de copacabana. Talvez tenha surgido daí a inspiração para o desenho de sua calçada tão famosa, o caminhar de um jovem boêmio. Deslizou, tropicou e caiu sentado. Numa cadeira vazia por sorte. Ajeitou-se. Ao seu lado nas cadeiras do balcão, estava sentado um homem jovem e bem vestido, de palito fino e alinhado, porém a gravata já havia se tornado lenço para o nariz e os primeiros botões estavam desabotoados. Em cima da bancada algumas cervejas, talvez uma meia-dúzia. Todas abertas mas nenhuma completamente vazia. Talvez a vontade de se ver bêbado fosse realmente maior do que a de tomar aquelas cervejas. A sua aparência levava a crer que algo não estava bem. 
      "E aí meu rapaz, você não devia beber tanto sabia?" O velho bêbado levantando uma bandeira contra o alcoolismo. Ironicamente é claro. Talvez ele estivesse mais preocupado com que ele acabasse com todas as cervejas do mundo. "Sai pra lá seu velho cachaceiro, eu não vou lhe pagar bebida alguma!" "Ei, ei, calma lá. Você acha que é isso que eu quero? Garçom, faz favor. Marque essa cachaça que lhe pedi e todas as cervejas desse rapaz em minha conta. E o que mais ele puder beber!" Falou levantando parcialmente o traseiro da cadeira, porém ainda segurando no encosto com um dos braços e olhando para o infinito, com ares de quem proclamava a independência dos bêbados sem dinheiro mas com dignidade. Com certeza não foi convincente para o garçom, que tinha plena noção de sua pé-rapadisse. Mas foi o suficiente para fazer o rapaz se arrepender do que havia dito. "Não, que isso, Me desculpa. Ignore. É que estou com alguns problemas. Posso te pagar uma bebida?" "O que é isso digo eu. Eu jamais aceitaria." Uma pequena pausa. "Porém percebo que é um homem de classe, e que ficaria extremamente sentido se não aceitasse. Não quero que pense que me falta educação. Então, que seja!" Perder uma oportunidade? Jamais. Enquanto o garçom o servia tratou de ir puxando assunto. 
      "Mas diga-me rapaz, porque toda essa foça?" Perguntou, enquanto cheirava e degustava sua pinga como se fosse o mais puro vinho italiano. "E porque mais seria? Estou sofrendo por amor." E olhou para o nosso bêbado ancião, como que esperando o sinal verde para começar a desabafar. Que não veio. Ele preferiu virar sua cachaça de uma vez só. Antes que fosse tarde demais. O rapaz então decidiu insistir no assunto. Talvez encontrara alguém para sofrer junto sua dor. "E você senhor, porque bebe tanto? Também sofre por amor?" O nosso velho então respirou tranquilamente e mergulhou em uma serenidade que fez o rapaz pensar que ele havia tomado uma dose de glicose, e não de cachaça. "Meu rapaz bebo pra esquecer dos problemas da vida, talvez. Mas nunca do amor. Dele quero me lembrar a cada instante." O rapaz retrucou. "Pra o senhor deve ser fácil. Mas eu não consigo viver sem ela!" Falou o rapaz imaginando ter encontrado os ouvidos que precisava "Você não consegue viver sem ela, mas ela pelo jeito consegue viver sem você. Você quer nada além do que lhe é conveniente, lhe faz bem. Assim como um carro luxuoso te trás conforto ou um cobertor quente lhe esquenta os pés. Você deveria ser preso por chamar isso de amor. O amor nao é o que pensa. O amor é auto suficiente e alimenta-se por si só. Basta que exista. E é muito diferente dessa sua carência que vaga por aí como um cachorro faminto atrás de uma presa pra descarregar essa sua necessidade de depositar suas frustrações em outra pessoa. Por favor, cresça e vire homem seu pivete" O rapaz então ficou cego de raiva. Tomar lição de moral de um desconhecido, até aceitaria. Mas de um desconhecido, velho, bêbado e mal-cheiroso era mais do que ele podia aguentar. "O senhor deve estar louco pra falar assim comigo!" Esbravejou levantando-se da cadeira imponentemente. "Talvez eu seja mesmo. E quando você perceber que o mundo que vivemos é um completo manicômio, talvez também se torne um!" E também levantou. Na segunda tentativa, mas levantou-se, e bateu fortemente com uma moeda que tirara do bolso da camisa, sua filha única, no balcão. Por um momento ficou com receio de tomar uma bordoada, mas manteve seu peito de tombo estufado por alguns segundos e virou-se em direção a saída. O rapaz ficou frustrado por não ter achado palavras e sentou-se novamente. Seguido por um suspiro aliviado do nosso velho. Sua retirada fez-se com pressa afinal em nome do seu orgulho sua última moeda havia sido gasta, e alí se dava início a uma nova saga, uma nova epopéia: A conquista de mais uma moeda! Afinal, logo seria a hora da caipora do almoço. 
      O velho bêbado todo orgulhoso pela vitória no combate moral saiu, e rumou em direção ao horizonte com seu trançar de pernas característico, movimentos mansos e sorriso leve e habitual e desapareceu. O jovem rapaz continuou ali, pediu mais uma cerveja e praguejou com o garçom. "É um velho louco, Demente" Talvez ele bem lá no fundo não tivesse achado isso. Mas ele tinha seu orgulho próprio e jamais admitiria isso.

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